Monday, October 16, 2006

A Tempo - história 18 do Anoitecer ao Tom Dela

1
O meu amigo João Jorge, durante muitos anos, fez tudo aquilo que se esperava dele. Comeu a sopa, aprendeu a andar de bicicleta, acabou o 9º ano, experimentou o primeiro sexo com um rapaz francês e casou-se com a Gracinda, para bel-prazer de ambas as famílias.

2
Dividiu com o irmão Armando os élepês dos Yes, dos Genesis, dos Emerson, Lake & Palmer e do Mike Oldfield. Deu a bicicleta ao 14º filho da família mais pobre da aldeia e do mundo. Pegou na Gracinda, fez-lhe um filho rapaz e alou para França.

3
Arranjou trabalho, a 16 quilómetros de Montpellier. Como era um belíssimo bate-chapas, forrou dinheiro ao monte. Todos os meses chegava à aldeia e à Gracinda um belo cheque francês. O meu amigo João Jorge esteve três anos sem cá vir. O problema foi quando a Gracinda apareceu grávida.

4
O Armando estava a beber umas cervejas com o pessoal nessa noite de sexta-feira. A mulher do café, gulosa de notícias e jornalista da desgraça, quis ser a primeira a contar-lhe. E foi. Contou-lhe que a cunhada estava “pranha” e como é que isso podia ser. E não podia.

5
A minha mágoa, ainda hoje e para sempre, é não ter lá estado nessa noite negra e vermelha. Ninguém segurou o Armando. Saiu no mau minuto dessa hora má, colheu do chão um calhau final e foi rebentar a cabeça da Gracinda à frente do menino.

6
Havia uma mentira e duas verdades. A Gracinda não estava grávida. Tinha um tumor no útero do tamanho de uma bola de andebol. Essa era a mentira e a primeira verdade. A segunda verdade era que era amante de um fulano do stand de automóveis da zona industrial.

7
Tiveram de telefonar ao meu amigo João Jorge. Um telefonema para França era muito caro, mas ninguém olhou a despesas. Disseram-lhe que a mulher estava morta, e porquê, e que o irmão estava preso, e porquê. O João Jorge veio. Não quis assistir ao funeral. Também não pôde matar o gajo do stand, que tinha fugido para o Algarve. Só pôde visitar o irmão na cadeia.

8
O João Jorge voltou para França. Continuou a mandar dinheiro todos os meses. Agora, o cheque vinha para a cunhada. A mulher do Armando perfilhou o menino do João Jorge e da Gracinda. O Armando apanhou oito anos.

9
Ao fim de cinco anos e meio, o Armando foi libertado por bom comportamento. Mas já não era o mesmo homem. Falava constantemente do assunto. Dizia outra e outra vez onde tinha pegado no calhau, quantas vezes dera com ele na cabeça da Gracinda, e porquê.

10
Os anos passaram muito depressa para uns e tão devagar para outros. O Armando morreu alcoólico. O João Jorge voltou com uma reforma boa. Casou-se com a cunhada, que nunca pôde ter filhos. Também teve um tumor no útero, mas foi operada a tempo.


Caramulo, tarde de 11 de Outubro de 2006

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