Monday, October 30, 2006

Quem não Fala, Come - histª 3 do Anoitecer ao Tom Dela

1
Depois de muitos anos, a mulher voltou a ter um filho. Homem e mulher julgavam-se já a salvo do comando bíblico, depois de o mais velho ter sido sepultado em Angola e de todos os outros terem encontrado na França o que esta serra lhes não podia dar.

2
Era mais um neto do que um filho, posto que a mulher tinha já idade para ser filha de si mesma. Resignaram-se. Moravam numa casa de pedra e pau no lado mais só da serra. A aldeia mais próxima conseguia fazer-lhes chegar o som do sino, mas não mais do que isso.

3
A mulher fez como das outras vezes. Soltou-se da criança entre sangues e transparências – e sem um grito. Lavou o rapaz, agasalhou-o e deu-lhe leite do próprio peito: o corpo dela não tinha esquecido nada.

4
O cão, os patos, o porco e as galinhas eram o resto humano da creche do menino. Entendeu-se com eles mercê da velha linguagem que desde sempre e para sempre traça a união e a concórdia entre crianças e bichos.

5
Um dia, a mulher morreu. Na morte, duplicou-se: faltava a mulher a um e a mãe a outro. Enterraram-na debaixo do castanheiro, entre sangues e transparências – e sem um grito.

6
Nessa noite, o rapaz disse:
– Meu pai, e agora?
O pai disse:
– Agora, é o resto.
Para o rapaz, o resto parecia maior do que era possível viver. Saiu ao quintal, enxotou o cão e não respondeu ao porco – nem aos patos – nem às galinhas.

7
À primeira hora do dia, quando a luz não é ainda luz mas tão-só uma dedada da tinta do desmaio, o pai acordou sozinho pela primeira vez na vida. Sentiu de imediato o decreto da solidão. Resignou-se.

8
O rapaz ainda anda pela serra. Não tem irmãos que conheça. Nos primeiros tempos, como sabia a língua dos animais da terra, alimentava-se de peixes – os peixes são da água e não falam.
9
A trovoada acorda pai e filho em sítios diferentes. O pai acorda e espera. O rapaz acorda e põe-se a andar. Vai habitando casinhotos de pedra e pau abandonados por pastores que já não há.

10
A roupa do rapaz gastou-se. A magia da linguagem também. Deixando a fala, curvou-se. Ajoelha-se perante o diabo da fome e o deus da saciedade. Como já não tem de falar com os animais da terra, alimenta-se deles sem remorso. Só lhe falta uma mulher.


Seia, 7 de Setembro de 2006

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