Wednesday, October 11, 2006

Algumas Vidas para Troca Desta

1

Detalhada circunstância tenho dado
de uma vida tão co’a minha parecida,
que nem parece, a própria vida,
passar de si mesma ao lado.

Talvez eu ainda viva muito, talvez
um dia eu viva outra vez.

2

O meu Pai colheu para mim uma maçã silvestre.
A maçã trazia o cheiro da mão dele.
Às vezes levanto a minha mão à cara:
e ele vive outra vez, eu juro que vive.

3

Tu es parti.
Tu es partout.

4

My life shall never fail
but me.

5

Eu vi a pureza em um antro sórdido.
Cascas vegetais e plásticas juncavam o chão.
Disponho d’um coração seguramente já ido
mas disponho de um coração.

Beijo muito a minha gata, que se rebela.
Estendo na sala um augúrio horizontal.
Perguntam-me p’la vida, ‘tão como vai ela.
Digo desandando que vai menos mal.

Eu vi muitas coisas, algumas das quais
morreram na praia, a qual fervia
de vidas e mortes sempre tão ‘sponsais,
que amavam à noite o ódio do dia.

Eu agora não sei, eu digo “eu agora”.
Lisboa é j’ali, mais acim’a Europa.
Já fui homem verde quand’andei na tropa.
Ai logo qu’eu pude, vim-m’eu logo embora.

Decerto fiz mal, que hoj’eu podia
ser l’até quiçá capitão.
Mas morri na praia, a tal que fervia
tão sórdid’e pura com’um coração.

6

Mais teimos’é o amor do que o amante.
Existe e persiste contr’a reforma fiscal.
Os cornos insistem marrar adiante.
E o rabo compulsa a caca final.

7

Mas de vida falávamos, não era tal assim?
De viva vivida por ti e por mim.
Coisas de comboios, empregos, desditas.
Horas graciosas de rosas aflitas.

Possa quem puder, sej’om’ou mulher.
Possa quem de si ter carga de pranto.
Eu nasci de dia mas a noit’entretanto
faz d’um homem noite, dia se quiser.

8

Na noite fechada de cada um si mesmo,
luzitas pipilam o longo corredor.
Palpitam as leis, instituem a esmo
o que já se sabia por ódi’amor.
Um hom’é um homem. Mulher é bem mais.
É mãe e, viúva, legisla por pais.

9

Quanto quer a vida airosa
cobrar juros ao futuro?
Tira pétal’à tu’ rosa.
Espinho fura fino e duro.

10

O meu Pai fez uma vez cinquenta anos.
Eu olhei para ele sem me aperceber da
tempestade que aí vinha.
Todo o Pai é uma vitivinicultura:
homens e mulheres trabalham para colhê-lo.
As mãos do meu Pai cheiravam a
maçãs de vinho dourado.
Dourado e silvestre.
Eu às vezes levo a mão à cara e
digo: o meu Pai é um sítio onde
estive.
E ele vive outra vez, eu juro que vive.





Caramulo, tarde de 10 de Outubro de 2006

2 comments:

Paula Raposo said...

Só posso dizer que achei sublime! Beijos.

Fanette said...

Já se torna uma obsessão espiritual passar por aqui.