Monday, October 23, 2006

Pescador de Pedras – uma Sequência

1
Lá em baixo, os castanheiros.
Subindo um pouco, as tílias.
Um pouco mais, os cedros.
Vista perdida, plátanos,
carvalhos, espanta-lobos,
áceres, amieiros, freixos.

Há pessoas que se perseguem
nos peixes que querem pescar.
Atiradores ao próprio coração
no alto pássaro solitário.
Há coleccionadores de pedras.
Há figuras entre as árvores.

Gente para quem andar vivo
custa mais a perder que a ganhar.
Oram dentro do azeite
aos ícones ribeirinhos.
Assimilam da horta
pesados frutos terrosos.

Pessoas que nunca ganharemos,
que venceremos jamais.
Gente em cujo peito
o ar queima fitas sanguíneas,
em cuja cabeça
a luz queima fitas sanguinolentas.

Como chamar ainda novo
a cada dia, quando mesmas
demoram as árvores, as pessoas?
Proceda o céu a seus numismáticos
coruscantes brilhos – não novo é ele,
nem o caçador, nem o pescador de pedras.

2
Vários homens roucos habitam o meu espelho da barba.
Recorto-as um a um com a lâmina.
O vidro toma simétricas silhuetas de chumbo.
Baixo de olhos fechados à água corrente.

Esparsas mulheres graves embolorecem pelos cantos.
Favorecem de humidade as plantas encerradas.
Arredo-as com as mãos como a cortinas.
Se lá fora chove, ouço-as que murmuram.

Pago a renda da casa a esta malta toda.

3
São estes os trabalhos, estes os dias.
Transvazam uns em os outros.
Alimentam-se da carne da figura.
Somem a saúde e a loucura.

4
Era um homem que já estava no futuro
– onde os mortos, não no passado, o
esperavam.

5
Mais fria a cama que a noite invernia,
mais quente a lua que o sol aparecia.

6
Esperava o comboio subterrâneo na noite de domingo. Tinha nascido para cruzar os mares, vivia de esperar comboios subterrâneos, apanhava o comboio, seguia por algum mar. E também o mar era subterrâneo. E no fundo do mar estavam as pedras dele, os pescadores dele e as árvores dele.



Caramulo, tarde de 23 de Outubro de 2006

3 comments:

Anonymous said...

Gosto, como gostei sempre do que me leste, fui e vou lendo. Um abraço.

Anonymous said...

Convencionou-se, provavelmente por pela observação do facto, que dos icebergs só se vêm as pontas.
Que segredos terão mais os icebergs que nós ainda não sabemos?
Talvêz uma maneira de descobrir seja ir ter com eles.

JP(15) said...

"Talvez" não leva acento, burro(a)...