Friday, March 06, 2009

O que Há, o que se Passa – sem ser pergunta


© Toni Frissell
Weeki Wachee Springs (1945)





Souto, Casa, noite de 5 e tarde de 6 de Março de 2009



I. Gestos

Gestos há suspensos de si mesmos como louça
A colher que leva a mão à boca
A terceira mão que te ajeita no escuro a manta
O ouvido interno que abre palácios de areia no entendimento
O lápis que se quebrou quando escrevia música
A pausa inquieta dessa quebra
A música dessa louça suspensa no gesto.

Gestos passam-se na areia como deuses de terracota
Como gnus fugindo de um incêndio total no céu
Como as mães quando adoecem de mais amor ainda
Como se eu não soubesse o que quero dizer
Como papel manchado de sebo lírico
Como uma recordação de eléctricos ampliando o rio
Como se não fôssemos todos para onde vamos todos.



II. Valsa

O aparato fontanário da música de valsa atira lunambulismos
de azinhagas telhadas muito alto por arabescos rosários.
Damas altas como flautas de champanhe tomam água fria e
riem-se à beira das lágrimas, enervadas da própria beleza.



III. Hospital

Trazem os velhos para as urgências, dão um número falso de telefone na inscrição, pisgam-se nos carritos ferrugentos, os velhos abandonam-se às senhoras do voluntariado, que parecem freiras de bata, aparece logo um tisnado qualquer com uma bíblia brasilesa, cheira a injecções de pus, do lado da psiquiatria chegam gritos que assomam de poços perplexos, o carrinho das bolachas guincha saladesperadesespera, então muita saùdinha é o que mais lhe desejo e não se reprime um bocejo.



IV. Lã

Se te não falo com mais fáceis palavras ao entendimento,
será por causa, não sei, dos palácios de areia no entendimento,
ou do aparato valseado de cada fontanário.
Custa-me que a vida não seja tão hiperbólica como merece.
Depois, há a metáfora mundial da televisão, os carneiros humanos cabisaltos mamando o pus dos novelastros, dos futebolastros, da merdastra que me faz falar-te como se a poesia não fosse, como de facto é, a mais curta recta entre dois carneiros.



V. Peditório

À porta do hipermercado, peditório.
Não para os pretinhos de África nem para os branquinhos da Administração.
Peditório de rimas.
Uma senhora de seus 50 e tal anos, um rapaz com ar de ler paucoelho e danbrão.
Cada um com seu saco.
Recolhiam rimas.
Perguntei-lhes para que eram as rimas.
Perguntei-lhes para quem eram as rimas.
Disseram-me que para ajudar as esposas malfodidas de dentistas a fazer sonetos e assim.
Contribuí com as que tinha no bolso.
É tão fácil ser solidário e bonzinho e poeta, o que para aí vai deles
e delas
elas
elas.



VI. Rimas

A vida não vai render-te
tréguas mansas, isso não.
Podes, é fácil, perder-te,
mas el'-á sempre salvação.

A patinagem artíst’ca
ai faz muito mal aos rins.
É o que vem na ’statíst’ca
e nos sacos d’amendoins.



VII. 18, 19

Meandros de azulejo escureciam os mesmos passos
dos que demandavam nada já senão sombras e espinhas
de descarnadas recordações, atento perto o rio aos lances
voadores dos peixes comedores de aves, de janelas mínimas
caía música de transístor, cheirava a mijo e a lixívia ao mesmo
tempo, eu teria quê, dezoito, dezanove anos, não mais,
nunca mais.
Das vielas nasciam mortos educadíssimos que estimavam o
último fato completo e o fado em tom adequadamente menor,
latas redondas de cavalas azeitavam o pão escuro que o Senhor
dá cada dia a quem Lho pagar com vida de palmo e língua portuguesa,
cheirava a mulheres encardidas como serapilheiras
a quinhentos a meia hora e a polícias aborrecidos e metafísicos,
a mim cheirava-me a estas coisas.
Fui aproveitando tudo para os versos do futuro,
estes.

1 comment:

fj said...

foto dos diabos, capa do álbum 'undercurrent' do bill evans e do jim hall.