Saturday, March 14, 2009

Ente, Cedo

© Arno Rafael Mikkinen
Foster's Pond (2000)



Souto, Casa, manhã de 14 de Março de 2009




A alba apareceu vertebrada pela árvore sem folhas.
O ar, todo de gaze, fumo da terra respiratória.
Os vizinhos levantam-se cedo, vozeiam a casa do lado.
O mundo volta à cabeça por partes, junta-se na língua.
Os sonhos acabam, negativos cortados juncando as mantas.

A pessoa desce das funduras altas para orar a hora.
Os objectos da casa ressurgem, sinais da acumulação.
Não há esquecimento, mas transformação.
Memória das rosas tombadas ao tampo da mesa da cozinha:
as crianças adormecidas que esperavam o pai.

Respiração da mãe, adormecida também, longe.
A espiral torneou-se, peixe cosmológico, ave estelar.
O tempo coleccionando saquinhos de pó, de giz, de unhas.
A alba ressurgindo como matriz da eterna vida.
Vinte anos, cem anos, uma hora: tudo é vivo.

Jogamos as pedrinhas nas mãos minerais.
Gaze nós também, vozes como as do lado, dentro.
Acorda-se para o trabalho, para respirar a espera das folhas.
Crianças varam canaviais chamadas pela orla do mundo.
E as aves riscam o grande papel do céu – e o mundo é.



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