Sunday, March 15, 2009

Habitação e Povoamento de Pombal (9 e 10)

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Manhã de 12 de Fevereiro de 2009

Hoje: 25 anos exactos sobre a morte física de um gigante – Julio Cortázar: 1914-1984. Qual 1984?! 2009 e ss., isso sim.

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Fim da manhã e tarde de 13 de Fevereiro de 2009

A minha S. faz hoje anos.

Retomo, para concluí-la, a leitura de Europa, de Vasco da Gama Fernandes, edição do Autor, Leiria, 1953. Entre as páginas do volume, redescubro uma nota manuscrita:



“Confio no ensino dos campos.”
(Antero de Figueiredo, Jornadas em Portugal, 2ª ed. (1918), a pp. 52)



O universo parece-me eminentemente rural. O meu, digo. O teu e os vossos, não sei. Versos e universos, ele há muitos. Na manhã de domingo, quantos domingos e quantas manhãs. A minha e o meu nasceram frescos, banhados a ouro pelo lado casquinha das árvores. O ar, grande aquário. Fui um peixe vermelho e negro, cedo na pastelaria, entre comedores de farinha cozida e leitores de jornais desportivos.

Na manhã aniversária da minha S., sol e céu são uma bênção unificada. A luz alaranjeira-se toda. Há um grande ar lavado para respirar lavadamente. Vou a pé à cidade ter com ela. Um presente, um almoço, depois a tarde, a noite depois. (Antes de almoço, compro-lhe, na Livraria K de Livro, Robert Doisneau, edição fotográfica da Taschen. Florista encerrada mais cedo, impossível levar-lhe uma rosa amarela. Alegria: ao desbarato, um livro profusamente ilustrado sobre a Buenos Aires de Borges e um Roteiro de/sobre Italo Calvino: leituras seguintes em linha, de que me/vos darei conta, talvez.)

À espera de S. para almoçar. Nas escadas rolantes do centro comercial (chama-se, em vernáculo, PombalShopping), vejo um ser feminino de boa envergadura, calças de tinta vermelha, cabeleira de tinta preta. Ancas muito simétricas, de um magnetismo enérgico. Cabelo comprido e liso, cerceado ao alto por um risco branco-nácar de salão. Uma comedora de fatias de quíche, saladas em pires fácetefúde. Agradável à vista, que não ao tacto, na hora solar.

Depois de almoço (ela bacalhoou à Gomes de Sá; eu fui, e bem, pela raia grelhada), o Sol continua a ser a notícia mais esclarecida do dia. Breve volta pelas papelarias em busca de cartuchos de tinta permanente de cor alternativa a preto e azul. Não havia. O desejo era (ainda é) escrever com uma tinta que desse este desmesurado branco todo, que sufraga a existência e a hora, que exalta a eternidade rápida da beleza do mundo. Mas já leio o Calvino. Vasco da Gama Fernandes esperará um pouco mais.

No fundo como à superfície, trata-se(-me) de aproveitar a vida para escrevê-la e de escrever a vida para vivê-la.
Não pretendo dizer mais nem menos do que isto.

Na tarde soalheira, o Adriano do Talho idem e o Amadeu do Mercadinho (agora também com loja anexa para abastecimento de produtos para animais, onde era antigamente o Restaurante Verde Gaio de outra memória, servido à mesa pelo mui benfiquista senhor Abel) conversam soalheiramente. Vejo-os à distância, não me meto agora com eles, que vim fumar à rua e depressa fumo, já que quase completei a leitura deliciada e séria de Italo Calvino – um Roteiro, edição de 1996 da Editorial Teorema – o Roteiro propriamente dito é de Mario Barenghi e Bruno Falcetto; a Bibliografia é de José Colaço Barreiros. (Já agora, como a Teorema foi absorvida por um paramonopólio editorial luso, o ex-distribuidor da editorial anda pelas livrarias da amargura a recolher dez-réis-de-mel-coado em sobressaldos de gigantes como Calvino e Norman McLean, entre outros: Palavra do Senhor, Graças a Deus.) Depois a noite.

1 comment:

Rui said...

Parabéns ao pai, à mãe e, por ser indispensável, (que é um peixe obrigatório), à filha: "o Sol continua a ser a notícia mais esclarecida do dia".