Wednesday, March 11, 2009

As Quatro Estações

Foi há mais de trinta anos, caramba! A 5 de Novembro de 1977, vi o meu primeiro texto publicado. Chamava-se (e ainda se chama, enfim) As Quatro Estações. Saiu na página infantil de O Diário, um suplemento de artes (muito) juvenis coordenado por um tal Oriam, anagrama de Mário Castrim.
Recordo ainda, claro, a excitação de ver o nome no jornal, o milagre da caligrafia ter devindo letra impressa, essas coisas (ainda hoje) pueris.
O poema tinha de ser o que era e o que foi: uma coisa neo-realíssima, própria de quem tinha 13 anos e andava na escola, em Português, a estudar
Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes
.
Cá fica, para documento.




As Quatro Estações



Quando chegou a Primavera
transbordou vida nos campos e nos
olhos dos homens. Houve até quem
dormisse por entre madressilvas
congeminando formas de melhorar
a vida.

E no Verão, quando o sol ardente
lambeu os corpos e tornou mais
difícil o trabalho aos aldeões, os miúdos
assaltaram o rio, buscando
na frescura das águas aventura e
desporto.

Chegou o Outono. As folhas das árvores caem como
lágrimas que largam o que foi
a sua companhia. E a poesia dos homens
morre com o enterrar das enxadas
na terra de sempre.

Mas cai o Inverno, e não transborda agora
vida nos olhos dos homens, nem os garotos
procuram aventura. A chuva
encharca a terra e alaga a alma
aos homens. Afoga-se na taberna
o desejo de progresso.
Terras de sempre.



Daniel Santos Abrunheiro
(Pedrulha – Coimbra)

7 comments:

alice said...

gostei de ler este poema que tem a minha idade :) beijinhos, daniel

SD said...

É fabuloso como aos 13 anos já escrevias com o aquela "forma" que te caracteriza actualmente!
Tu brincas com as palavras, de uma forma única.

Sophis said...

:)

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

O poema é velho, mas tu, Alice, tal como as duas outras gentis meninas, és moça e nova e jovem.

Manuel da Mata said...

Castrim não era um jornalista. Era uma escola.
A quem a santa madre igreja nunca atirou uma pedra: foi velado em Santa Joana a Princesa, em Aveiro.

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Bom dia, meu querido Amigo.
Castrim era o que dizes e muito bem.
Tive oportunidade de falar com ele duas vezes - e em casa dele, Lisboa.
Foi um bom homem.

Anonymous said...

Os Esteiros e o Soeiro estão aqui, Abrunheiro!
Eu também nunca esqueci o Gineto, o Sagui, o Gaitinhas,o Maquineta.
Estamos fodidos, ó Abrunheiro! A infância é o nosso país e agora vivemos no exílio ( desculpa lá a citaçãozeca trôpega!).