Tuesday, March 10, 2009

OS OBJECTOS PARECEM-NOS MUITOS e UM LEVANTAMENTO


© Sandra Bernardo
Pudor - 1
Pombal, 26 de Fevereiro de 2009

Fonte Nova, manhã de 10 de Março de 2009

I. Os Objectos Parecem-nos Muitos






Os objectos parecem-nos muitos mas são poucos
porque cada vez menos visitamos os muitos
e mais os poucos que nos deixam viver.
Os muitos deixam-nos a viver.

A chávena o pente a retrete o cinzeiro.
A cadeira a cama o rádio a janela.
A árvore a parede o sabão o fósforo.
A caixa o lápis o livro a vassoura.

O dia diz-nos bom-dia e põe-se a crescer
como um fruto controlado pelo armazém
onde a noite faz de capataz plenipotenciário
onde a varanda deita para o horto de lixos.

A caixa de fósforos como possível metáfora disto tudo.
O fogo futuro dentro da caixa de tudo isto.
Duas aberturas ao livre-arbítrio.
O livro a mesma coisa nisto tudo isto.

Um pouco de atenção a mais e é o horror.
É o horror das rodinhas dentadas rotinas.
A cidade esparramada como uma raia de cal.
As empregaditas guelreando poemas e esfregonas.

Homens já velhos ainda ou já de sapatilhas.
Canários de um mutismo amarelo-prisão.
Em as casas as cadeiras as conchas de alumínio.
As avós de estanho mumificadas de súbito como pássaros.

Um repente de décadas coadas pelo ralo.
O lavatório ganhando estrias de cera manual.
A insurreição da erva nos interstícios da fala.
A árvore a chávena a caixa a cadeira o horror.



II. Um Levantamento

Um levantamento súbito de pássaros deslocou-me a atenção para outro dos flancos da manhã nacional, a um canto inócuo do País. Floresciam betões para poente, ao alto das bouças que os camionistas da pedreira atormentam noite e dia e epicamente. Empregaditos bancários (todos iguais como pardais) vieram tomar a bica de mínimos espetados no ar-condicionado. Distraí-me logo que pude. Pensei no mês de Outubro, pensei na Bélgica, pensei no silêncio da pétala seca quando cai para o naperon. Desdistraí-me e pus-me a ver tudo o que podia, na condição de não ser para dentro. Um rapaz quase mongol equilibrava a chapadas de banha farpas do canavial do cabelo junto a um balcão de bolos e queijos. Uma mulher comia azeitonas retalhadas num transe budista melhorado pela proximidade do fontanário. Uma camisola azul passava sem corpo rumo às urgências, sem especificar quais urgências nem de quê. Um sinal de haver bifanas tinha acento grave no verbo. Da montra dos electrodomésticos, a Lia Gama fazia de grande actriz numa eira perto de si. Bolhas de asfalto hematomavam o piso da estrada do Norte. Um comboio riscou a pauta em peregrinação semigrave. Cheirava a café-com-leite e a torradas-com-margarina de além da porta de acesso privado da biblioteca municipal. O rio seguia chapeando a estanho uma veia de terra ideal para rios e para estanhos. Por volta das onze e um quarto, já cheirava a assadura na churrasqueira. Distraí-me outra vez para concluir que somos todos apenas subúrbios da cabeça, essa bouça alta de onde, de facto e de súbito, se levantam os pássaros.

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