Thursday, March 26, 2009

LIDO CO’ LÁPIS – 2 - Camões Lírico segundo Agostinho de Campos (I Parte)





Camões Lírico segundo Agostinho de Campos (I Parte)

Souto, Casa, 5 e 6 de Dezembro de 2008,
26 de Março de 2009





“Poderá admitir-se o conceito de Benedetto Croce:
‘O poeta não é outra coisa senão a sua poesia’?
Sim, quando for fácil entre o poeta e o homem, e entre a poesia e a vida, uma nítida, inconfundível separação. Assim está próximo de suceder, quando o poeta se não contenta de fazer da sua poesia uma rítmica repercussão oral das palpitações do coração
o vil músculo nocivo à arte,
como o considerava Carducci –
ou desdobramento, em palavras e frases, das interjeições de dor e alegria, entusiasmo e depressão; quero dizer, quando o poeta se empenhe em comunicar imagens criadas em puro estado poético, ou seja em tensão vital que lhe anormaliza a existência quotidiana, no anseio de a superar em beleza, profundidade e altura. Em tal estado, não pode ser espontânea e natural a comunicação, nem o que se comunica é da pobre existência de que se tentou a evasão.

Hernâni Cidade,
in Camões,
2ªedição, Círculo de Leitores, Agosto de 1980




Agostinho de Campos (1870-1944) assinou em Lisboa, a 3 de Março de 1923, a Introdução que abre o primeiro dos cinco volumes de Camões Lírico, cuja organização lhe pertenceu sob a égide da Aillaud & Bertrand. Os tomos camonianos integravam um plano editorial globalmente denominado Antologia Portuguesa, que compreendia e pretendia divulgar popularmente autores como Fernão Lopes, João de Barros, Manoel Bernardes, Frei Luís de Sousa, João de Lucena, Alexandre Herculano, Guerra Junqueiro, Eça de Queiroz, Augusto Gil, Antero de Figueiredo e Afonso Lopes Vieira, entre outros paladinos da linguagem portuguesa.

À data da edição que possuo (a segunda, de 1925), a dita Antologia Portuguesa compreendia já 23 volumes publicados. O projecto mereceu da Secretaria Geral do Ministério da Instrução Pública uma nota de louvor publicada no Diário do Governo, II Série, nº 98, de 28 de Abril de 1920. Reza assim o registo oficial:


Considerando que à excepção dalgumas raras jóias do património literário nacional, se não conhecem geralmente as obras primas da literatura portuguesa, muitas delas de difícil aquisição pela antiguidade ou raridade das suas edições;
Atendendo a que a
Antologia Portuguesa, organizada pelo escritor Agostinho de Campos e publicada pela Livraria Aillaud, procura obviar àqueles inconvenientes, oferecendo ao público uma colecção onde fique arquivada a produção literária de muitos dos bons prosadores e poetas nacionais de todos os tempos e escolas:
Atendendo ainda a que a forma material como a
Antologia Portuguesa é apresentada, a torna verdadeiramente agradável e atraente e, por-tanto, de fácil vulgarização e largo proveito educativo;
Manda o Govêrno da República Portuguesa, pelo Ministro da Instrução Pública, que seja louvada a Livraria Aillaud pelo seu patriótico empreendimento, em vista dos altos benefícios que essa casa editora vai prestar à divulgação das preciosidades da literatura nacional, com a publicação da
Antologia Portuguesa.
Paços do Govêrno da República, 24 de Abril de 1920.
O Ministro da Instrução Pública, Vasco Borges.


A Introdução de Agostinho de Campos (47 páginas numeradas a romano) invoca testemunhos de “doutos Alemães”: F. Bonterweck (1805), F. von Schlegel, K. Rosenkranz (1833), B. ten Brink (1881) e o famoso tradutor e comentador W. Storck (1881).
(Diga-se à passagem que “Guilherme” Storck, aliás, integra a lista dedicatória do primo volume, Redondilhas, a par de Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Manuel de Faria e Sousa, Visconde de Juromenha, então já falecidos, e de Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Teófilo Braga e José Maria Rodrigues, então ainda não...)

Agostinho abre com um comparação resolvida:

“Luís de Camões, tão grande se não maior lírico do que épico (…)”.

Os sábios teutónicos de Oitocentos não desalinham do organizador português:

Bouterweck:

– “(…) uma tal graça”
resistente
“à crítica mais rigorosa”
e capaz de desarmar
“toda a crítica”.

Schlegel:

– “(…) pela grandeza do seu plano e propósito (…) não será fácil encontrarmos seu igual entre os modernos.”

Rosenkranz:

– “(…) cumpre considerá-lo na sua produção lírica, e não só na sua epopeia, como costuma fazer-se. Uma completa a outra.”
(A citação culmina com a manifestação da
“exuberância da sua alma poderosa”.

Brink:

– “Iniciado desde a mais tenra juventude nos mistérios da divina arte, e amestrado nela por uso e contínua prática (…)”,
Camões só pode ver provada a
“universalidade do seu talento”.

Storck:

– “(…) vale por muitos outros poetas e por uma literatura inteira. (…) êle é não só o maior lírico do seu país, mas um dos maiores líricos de todos os tempos.”
Storck conclui que o homem completo de Camões é nas líricas que pode ser visto:
“(…) mas o homem, no seu ser e na sua vida, na alegria e no amor, como no ressentimento e na tristeza; o filho do seu tempo pelo saber e pela fé, pelos devaneios e anseios; o consumado cavalheiro dos serões palacianos; o atrevido espadachim em plena roda dos companheiros de estroinice; o valente soldado de terra e mar; o destemido aventureiro que repartiu a existência pela Europa, África e Ásia; o finíssimo observador da natureza e da vida; o mancebo e homem feito, ilustre e cônscio do seu valor, mas pobre e infeliz; numa palavra: a personalidade íntegra, e os movimentos e impulsos que lhe imprimiu o Destino e os próprios erros – tudo isto só o podemos ver nas suas líricas.”
(A CONTINUAR)

2 comments:

Manuel da Mata said...

Ainda hás-de fazer uma fotocópia para mim.

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Com todo o gosto, Manel.