Tuesday, March 03, 2009

Um Postal para Gotemburgo, outro para o Resto do Mundo, outro para o João Saraiva Pinto

Souto, Casa,
manhã (III),
fim da manhã (II)
e tarde (I )
de 3 de Março de 2009




I. Um Postal para Gotemburgo




Com a ingenuidade que me resta, hei-de alinhavar ainda quantas palavras puder, tal que morrer possa em pleno juízo.
(Morrer, tarde, vamos com calma.)
Por agora lecciono-me e colecciono-me gatas, roseiras que dão laranjas azuis, entrelances de mentes atravessadas daquele sol de quando chove ao mesmo tempo – e de como isso nos retraz e retrai a todos as infâncias exclusivas, a placidez dos velhos, a acidez das amoras mordidas verdes.
Estou muito interessado neste quadro.
Tenho muita pena dos ricos que coleccionam quadros mas andam sempre de óculos escuros nas revistas e atrás do primeiro-sinistro na televisão e que tossem em S. Carlos nas partes mais bonitas do Verdi, que são todas.
Este início de tarde, um prato de nabiças aferventadas poetizou-me todo, urdiu-me um apetite por anchovas (que ontem aliás versejei num poema de amor para a minha mulher) e decassílabos tal, que vos mais não conto.
Agora, demoro-me como um postal de igreja num quiosque rodeado de suecos de terceiridade (como diabo se dirá terceiridade em sueco, que nem em português assim se escreve embora diga?), apaziguado pela benignidade da digestão, torrado de café chilro, fumado como um pernil apreciador déssegêgigante.
Bácora pécora, ínsua imensa – fervilho-me de sílabas altas e baixas como suspiros hidráulicos de camião de longo curso, tenho um amigo camionista que uma noite não voltou, amasiou-se em Gotemburgo e lá ficou, ele é que há-de saber como raio é terceiridade em sueco.
Saúdo o penúltimo sol do dia, não tarda não tarde é o tempo, mas noite sobrevinda para baixo, sub-ida para cima, não é pleonasmo porque hifenizei a coisa, o idioma é muito bonito, o idioma e as favas violáceas dos cactos são do mais bonito que há,
nesta segundidade portuguesa
minha,
nossa.



II. Sem Miúfa




Nenhum medo venha agora adentrar o homem,
nem nenhum fim-do-mundo de teologia de almanaque.
Os pássaros funcionam,
as árvores vigoram,
o ar é limpo
e a si mesmas lavam e de si mesmas correm
as correntes lavadas águas.

É de manhã.

Fui à loja, trouxe-me a casa a vontade
de estabelecer com o mundo uma espécie
de relação unilateral fundamentada nos mais
cordiais laços de boa-vontade de cá para
lá.

Estou em paz com a minha própria merda.
Nada a fazer: gosto disto tudo.

Três cedros: três verdes, maravilhas.
Nenhuma cor é mais promíscua do que a cor verde.
Parece uma pessoa dada a partidos no poder,
a cor verde.
Nove fiapos de recheio de almofada, branquíssimos,
no céu muito esclarecidamente azul: recordam-me
ter treze anos, enumerar a dedo no manual:
cirros, nimbos, cúmulos, estratos.

As minhas gatas condensam em brilho o sol da varanda.
Nos vasos-gaiolas, as plantas-aves cantam brilhos também.
Em gabinetes fórmicos, arquitectos traçam os dormitórios futuros,
os poetas inventam reclamos sombrios,
os médicos pensam nas seis da tarde,
os carpinteiros redistribuem o bosque
e o senhor António do Café verifica as facturas do bacalhau:
nenhum tem medo.

Eu também não,
eu seja Homero
se tenho.



III. Vamos a Contas, Amigo João Saraiva Pinto




Acaba-se-me a manhã e não sei
que contas pedir a quem
do acabamento.
Eu sei eu sei eu sei eu sei:
a vida é um momento

mas

as mulheres da minha terra calçam botas de borracha,
escrevem a terra com lâminas de aço,
escrevem as palavras da horta,
tocam como ninguém a música dos animais,
as mulheres da minha terra são criadoras,
delas nascem obras, não são como certos
encafuados criadores de poemautomatismos,
João,
não são.

De qualquer modo,
hoje,
dia três do terceiro mês
(três por três dá nove,
que é o número do corrente ano,
João, meu magano),
de qualquer modo,

é bom nicoticafeìnar ao resguardo das horas más
como todo, menos um, outro mais, é capaz,
é bom voltar a ter a epifania da nespereira
no quintal do vizinho, nunca deixo, aliás,
de a ver como a uma lona de feira,
agora que uma bonita menina de pulso tatuado
fuma e se cafeína ali, na mesa ao lado,
toda enroupada de seda e ganga,
o baixo-ventre rendilhado de fina tanga
de Taiwan.

Mas a quem, João, hei-de eu pedir contas
do acabamento da manhã?

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