Monday, March 02, 2009

V. / V. e outros Poemas Normais


Foto: Souto, Casa, noite de 6 de Fevereiro de 2009



I

V. / V.


Souto, Casa, tarde de 1 de Março de 2009


Do que se me ardeu vejo a sombra:
corpo que me duplica o nada
a nada
pelo chão.

Um tíbio sol hoje consulta o mundo de em baixo.
O fresco tirita a árvore da camélia e a árvore do limão.
É vão contar as horas que todas vão.
Viaturas, vermelhas umas, outras cinzentas, vaporizam-se.
Há no ar um estralejar de passaritos ocupadíssimos.

Giesta / esteva / carqueja / arsanha / urze.
Kiel / Danzig / Konigsberg / Mar Báltico / Mar do Norte.
Pundonor / candelária / prostíbulo / samos / face.
Mundo / vida / mundo / vida / vida.

Ao que sombreio / deito fogo.
Vida / vida.



II

Quadro


Souto, Casa, tarde de 2 de Março de 2009


A casa coroa um promontório breve.
Aos pés tem o rio escoltado de seis árvores boas.
O sapateiro frita um ovo ante a menina de sapatos cor-de-lacre.
É tudo vida emoldurável.

Estou ante a parede subindo o quadro ao prego.
Sinto uma espécie de júbilo, de música uma espécie.
Pode trovejar, concatenar-se o lume com a água – nada
me demoverá nem devorará, para já, ante a beleza
suspensa de guita & prego na parede da casa,
no quarto, onde me sepulto de açúcar pestanejado
ante

a casa que coroa, breve, o promontório da minha vida, breve.



III

Oferenda

tudo idem


Oferendo-te a não marmórea lápide do rosto.
Os homens pobres sempre se ricamente deram.
Uma nuvem de sardinhas no mês de agosto.
As águas todas que os invernos já choveram.

Oferendo-te o meu livro de budismo, o meu lápis,
o disco dos Ramones quando era o liceu,
mais o Jimi Hendrix a tocar para os hippies
e oferendo-te-me a mim a ti, que és como sou eu.

Amor, a vida é breve, o amor não.
Se fores ao Raul, traz ’ma lata de anchovas
e um esfregão d’aço igual ao da’ scovas.

Depois, traz-te a ti, que a casa é sozinha,
que enquanto não chegas faz frio à noitinha,
amor, a vida é breve, mas o amor não.

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