Saturday, March 07, 2009

Dois Poemas e um Bosque para um Pacto Elegante

© Clarence John Laughlin
Enchanted Tree number one (1947)



Fonte Nova e Souto, Casa, manhã de 7 de Março de 2009




I. Aliança, Pacto e Elegância

Esta é a minha aliança, o pacto que posso
com a festa elegante de viver acordado.
Este é o estabelecimento das coisas possíveis,
da teia meteorológica à sinceridade possível,
dos copos plásticos com groselha na praia
à vicissitude dos bailes-das-velhas, sextas à noite.

Chegar a um dia sem muitos dias de então a vante
– e lembrar esta mulher de cabeça amarela,
camisola muito amarela e calça preta, botas pretas:
seu inflamado ar de cabeleireira amarela.
O socorrista namorado dela: banha, cara encarnada,
sapatilhas grossas com válvulas hidráulicas,
calças com bolsos na parede das coxas,
o cachucho de lata amarela no indicador dextro.

Dizer estes mundos com elegância – doravante, ainda.
Recolher à pastelaria mas velejar no árctico possível.
Não ter que fazer por dinheiro mas trabalhar.

Por outras palavras: ser um títere, um titiritero,
como na canção do Serrat.
Aderir à movida é que não, nunca mais.
Preferir-lhe o Árctico, os Campos, a inocente
babilónia-dos-campos, o Bosque, mesmo que
na pastelaria.

Esta é a minha elegante aliança, o pacto convosco.



II. Bosque

A palavra
Bosque
abre frestas respiratórias,
raposas ligam os pontos tracejados a árvores,
uma veia de prata ribeira seixos de ouro outonal,
a ponte de pau é mais postal que ponte,
pomares e pomares de maçãs resistem ao griso de cima,
do húmus chega um recado matermortal,
em alguns troncos a navalha escreveu corações flechados,
pessoas sozinhas como animais plantam a eternidade,
canaviais-da-Índia fulguram celas benignas,
morrer deixa de ser possível ontem,
um avião faz aos picos dos choupos o que as raposas,
a queimadura das laranjas deseja a água da boca,
a beleza começa a ser excessiva,
a casa do guarda-rios é branca de janelas verdes,
sente-se com a pele da nuca, mais que se ouve,
uma risada infantil trinando avezitas,
o coração visita os seus cantos exteriores
e canta vegetalmente, canta os seixos,
canta como um animal,
a palavra
Bosque.

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