Friday, August 28, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (45)

Souto, Casa, madrugada de 29 de Agosto de 2009





Ambiciono o relógio secreto dos gatos, pequenos budas amendoados e vivos oráculos da selva imemorial ao ouro dos crepúsculos.
Receio bem que a criança-em-mim seja um velho.
Ainda desejo um rio, um sítio de visões verbais, uma hora atlântica, um estar acordado sem fazer mal a ninguém.
Tenho muitas coisas porque nada possuo.
Culpa nenhuma de amar a medula espinal da minha cidade: rio triste de empregaditos do comércio, doutores estúpidos como folhas-de-flandres, cães maravilhosos sem deus nem mestre como na canção.
Sim, fundas máculas herdadas (o versilibrismo é hereditário): hoje, ao espelho raspando o rosto, dei nos olhos com o olhar do meu Pai e com o olhar dos homens dele, o Pai do Pai, os Irmãos do Pai, os Filhos do Pai.
Durou uns instantes, depois a água fria lavou e levou tudo.
Vejo nomes, também.
Assisto a caligrafias, é interessante: tudo é escrito.
Uma manhã, vi uma árvore vermelha de sentinela a uma casa verde.
Vi com estes que a terra há-de beber.
Vi também um caminho de pó bordando ligeira colina, era decerto manhã muito cedo, havia patos-mandarins de perfeita geometria (diedros, pensei, mas não sabia, a palavra bastava), não sei se já andava se não andava ainda no Liceu, eu via coisas com o corpo todo, era engraçado estar vivo e ver e ler.
Depois a noite fez-se hoje, é hoje há muitos anos, há muitos ontens, às vezes é difícil, o instante engelha-se como papel, o meu rosto também, por onde eles olham.
E sem o pecado da minha fundamental cegueira, da minha pessoal estupidez invencível, as raparigas conversam nos bancos traseiros dos carros com a pele, geram esquinas na biografia, umas são caixeiras de farmácia, outras tiraram geriatria, quase todas sonham com o Canadá, não sei porquê.
Poderoso é o mar esquecendo gerações, o indiferente mar que espera em pura eternidade, sítio antes da escrita, leitura de monstros irremediáveis.
Certa vez, fui a um convívio de trabalhadores, havia viola, ferrinhos e acordeão e bolo de laranja e febras e vinho e laranjada, as décadas correram través esse cenário, o meu irmão Fernando vestia uma camisola azul-escura, estou a ver isso.
A noite agora, o poder mediúnico (único, único) dos gatos, a caligrafia sem repouso desta espécie de dor, não sei.
Bolas verdes de árvore-de-natal, diedros e didascálias, nomes e medos, carros que buzinam dentro de ravinas ou sonhos, tremendas apogiaturas silábicas, bosques nefandos, virgindades de carácter e bacalhau com natas da Senhora Emília.
Ambiciono a cartografia do átomo planetário, como suportar a morte dos amados, revelar-te maninhas coisas por graça.
Quando algo em mim se fez à estrada sem bilhete, vastos laranjais ardiam de açúcar para as bandas do Sul, longos cabos de alta-tensão vibravam cifras já desumanas, os animais adoeciam e ensinavam o morrer, carrinhas verdes levavam tudo, bananas, remédios, pás, operários, escovas.
Eu podia ser outro, se não me barbeasse - ou se não tivesse aprendido a ler.
Uma senhora, dinamarquesa e viúva, faz chá em casa dela, ouve Berlioz pela telefonia, pensa coisas minuciosas sobre a igreja, a filha estudante em Toronto, a saúde declinante da mãe dela.
Ainda desço a Rua dos Navegadores, ainda cheiro os jardins abonados da parte da cidade onde explorei a vacuidade dos domingos, essas terríveis épocas da História.
De dois em dois anos, lá descem eles de Santa Clara com a Rainha Santa ao colo, as famílias balem farturas por tudo quanto é canto, eu dissipo-me na Avenida Navarro, dou que fazer às sombras com uma tristeza muito poderosa e bastante portuguesa.
Então os animais douram o campo de visão, os bailes ronronam de amor operário, há foguetes-de-lágrimas, para Oriente pulsa a redoma de cristal das criancinhas divinas, os comboios partem para a cidade marítima, um terror delicioso toma-me as vísceras.
Tudo isto é de uma natureza desimportante, o que sempre alivia.
A função entrou, o ofício vigia, o corpo dá-se a tréguas que muito bem entende, tudo é literatura - e nada importa.
Beleza e pinhais, muita lucidez, comoção epigráfica ante as normandias heróicas e anónimas das famílias laboreiras, decifração e paz mental, orlas e escumas, uma vida litoral.
Sim, os animais douram a vida crepuscular - e são públicos e secretos como a Lua.
(Sei que isto é uma ladeira.)