Friday, August 28, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (44)

Souto, Casa, noite de 28 de Agosto de 2009





Que engraçados são os fátuos fantasmas de cada um,
medusas de água em água semelham pelo coração,
desfeitos já os pequeninos desejos que os fomentaram.

Tenho os meus. Tu os teus terás, é humano, como humana
é esta caixa de ressonância dos tristes, a língua-pátria,
campo queimado com carroças, cães, elegias e ciganos.

Não saio de casa para que passeiem os fátuos,
no Café da Pernambucana fui feliz devagarinho,
muito gostavam os meus fantasmas da chuva a dar no mar.

Distraí-me gravemente na vida, é o que é, foi o que foi,
solto hoje versos para pagar tanta desfactura,
que engraçado ser como tu, campo de medusas.

Altas torres incendiadas crepitam pinheiros e pedras,
casalinhos de citroën ambulam 1976 afora,
pelas bermas se oferecia o belo melão, o pêssego carnudo.

Depois uma pessoa cresce nos ossos como musgo, torna-se lenta
e grave, dá por si mesma num café de Leiria contando moscas e sílabas,
ouve falar de um crime, comenta as legislativas.

Escusado demandar a poetas sentido para a vida,
o amor é mais que vidro delicado - e a solidão
é grave e material como um ferro, uma boca.

Há documentos dentro do coração, Espinosa polia lentes,
Herculano e Pompeia pouparam tempo, vale-nos
um Sherwood Anderson, uma ida calada ao rio.

E um dia um poeta será seus versos só,
maluquinho inofensivo como o bêbado da aldeia,
o professor primário, o senhor padre, a senhora que dá injecções.

Quando digo fantasmas, digo Setúbal, a Arrábida,
o cantor sem contrato folheando álbuns amarelos,
coisas assim da patriágua das medusas.

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