Tuesday, August 25, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (38-40)




38

Souto, Casa, tarde de 24 de Agosto de 2009

O Tempo toca a minha casa como uma criança das antigas se levava em frente uma roda.



39

Souto, Casa, 25 de Agosto de 2009

Mira aqui serena a vida das plantas e das nuvens,
toca a pele da luz à face do ar já outonal,
o nosso país é a sul da vida, é Portugal,
para onde pessoa vais pois é de onde vens.

Por mim, faço por ter mimosas as horas
as mais circunspectas no tempo que se desfaz,
nem mais lobrigo razões ou demoras,
é preciso viver sendo bom rapaz.



40

Souto, Casa, madrugada de 26 de Agosto de 2009

Algumas coisas da minha vida em andamento?
Assinei uma petição contra a barbárie marialva das touradas.
Revi o contrabaixista Henri Texier no vidro da têvê, vira-o em pessoa no palco do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, no ido Julho/1980, ao lado do meu malogrado Amigo João da Bininha, com o guitarrista Christian Escoudé e o violinista Didier Lockwood.
Fiz um poema de oito linhas, 4 + 4.
Alimentei as gatas e cocei-as - bem coçadas e bem alimentadas.
Leio Salvador Espriu, Antero de Quental, G. K. Chesterton e Joseph Conrad - mais vale bem acompanhado do que só.
Telefonou-me o João S. Pinto, talvez Coimbra em Setembro nos reúna - boa perspectiva.
Está fresco lá fora, vou defender-me com um caldo de carne e cebola benzido de azeite.
A madrugada já se abriu como uma toalha de linho escuro sobre o altar do mundo, não andarei na noite por aí, o candeeiro sobre o lado esquerdo como o coração - e como o coração aceso, os livros também abertos, generosos dadores de outras vidas outros sangues, pistas no Tempo, cifras que a imaginação lê e segue nas horas sozinhas.
Vi e ouvi o Geraldine Laurent Trio - bem boa música: "Lester Left Town", eu não.

Dou-me bem revisitando visões sobre o campo, sentado no muro de pedra argamassada a terra que já então se esboroava, olhando o campo e a moldura de amieiros e choupos, as linhas de água subindo devagar ao firmamento de paleta crepuscular, a polícia vinha pouco ao bairro, no fundo éramos aldeia como há séculos vínhamos sendo, os nossos mortos aprendiam depressa o latim e o mármore, a Senhora da Piedade sempre pálida e azul sempre, já então me sentia tocado pela melancolia pluvial até quando não chovia, isso não tinha nem tem mal algum, era e é apenas assim, cada um para o que nasce enquanto não morre, do campo chegavam os casais cultivadores pela Costa ou pelo Val' Forno, chegavam perfumando as ruas de terra verde, carregavam pertences e joalharias que hoje identifico como repolho, batata, couve, nabo, cenoura, cebola, alho, hortelã, oiro.
Dou-me bem não precisando de olhar para seguir vendo o campo, sentado de pedra no muro de terra, trabalhavam 'inda as fábricas, movia-as a coragem quotidiana e anónima de quantos regressavam a casa fatigados e prontos e humanos e justos, homens e mulheres que de vez em quando morriam de vez em quando nasciam, eu juntava as minhas letras e sabia-me destinado a ser pessoa, condição afinal terrível por inevitável, à porta do senhor Amaro juntavam-se os melros de calções que todos éramos, o Armando Torres viria a morrer alcoolizado desde menino, achavam graça a embebedar o menino e embebedavam-no, ele cresceu o que pôde e aprendeu a embebedar-se sozinho, quem o diz a ele diz a outros como eu, não é fácil não andar de calções pela vida que veio depois, esboroando-se.

"Daremos um último nome a cada coisa,
quando velhas recordações façam quase uma nova criação."

(Salvador Espriu, A Pele de Touro, XXXVII)

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