Tuesday, August 11, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (28)

© Sandra Bernardo

Corte de Cabelo

Souto, Casa, tarde de 10 de Agosto de 2009


28

Souto, Casa, entardenoitecer e noite de 8 de Agosto de 2009



O senhor Jonas não virá esta tarde tomar chá connosco.

Vamos merendar a sós.

Temos música de Glenn Miller, compota composta de figo, pão integral e chá de Moçambique.

Antes e depois do chá, ocupamo-nos em privado das nossas coisas.

Ela continua a organizar os arquivos fotográficos.

Eu tiro apontamentos díspares: Reinhard Tristan Eugen Heydrich, Julian Lennon, Boémia/Morávia/Praga/Londres/, Operação Antropóide, fileiras escocesas, Jan & Josef, 28 de Dezembro de 1941, Cynthia & Julia, comunicações via rádio com a capital do Império e chá de Moçambique.

A casa está em sossego, o senhor Jonas deve a esta hora estar a tratar dos pássaros no quintal que tanto ama.

Ela mostra-me algumas fotografias a preto-e-branco recentes, de que gosto muito.

Matilde, esposa de Jonas, tem andado doente.

Ambos quiseram garantir-nos que não há motivo para preocupações de maior, mas eu desconfio daquela tosse dela.

Passa o eléctrico nº 2210 no meu campo de visão mental.

27 de Maio de 1942.

Lei marcial em Praga.

No nosso pátio, o cedro acolhe aves friorentas: estranho Estio.

Sudetas, Checos.

Medidas draconianas.

Kurt, Franck.

Mleijnic Jaroslav, 1908; Novák Bohumil, 1900.

Vivo da atenção em papel & tinta.

Fantoches, criaturas do Grande Desumano.

Horas imemoriais: a História é um Trapo Negro Tinto de Sangue.

Corpos mal acordados em hospitais.

Fragmentos de granada, Heydrich todo rebentado por dentro leva dias a morrer, graças a Deus uma vez na vida.

4 de Junho de 1942, morte do Carniceiro de Praga.

Multitudinário pavor.

Noite em pleno dia todo o ano.

O Mal é Astuto; o Bem, não.

Os bichos da religião dominam a Rua.

Maurabezza, Cecília, Cora, Áreta.

Heroísmos e martírios, suicídios e eutanásias.

Tumbas lacrimogéneas, certos corações acordados.

Represália: recordação documentada.

Heróis exterminadores de Heydrich:

JOSEF GABLIK

JAN KUBIS

ADOLF OPALKA

JOSEF VALCIK

JAROSLAV SUARK

JOSEF BUBLIK

JAN HRUBY.

Traidor:

KAREL KURDA, filho-da-puta, cujo rosto aparece na televisão em nojo.

Enforcado por mérito próprio, libertada Praga.

Não sei quando voltaremos a oferecer o chá ao senhor Jonas.

Por enquanto, ela descansa um pouco com uma das gatinhas ao lado na cama.

Falámos um pouco da morte, hoje, de Raul Solnado, Actor, aos 79 anos.

Figura extremamente portuguesa – é o que me ocorre pensando nele.

Morreu de manhã, dizem que às 10h50, no Hospital de Santa Maria, em Lx. (o mesmo em que seis doentes ficaram cegos não se sabe porquê nem por quem).

Teve e deu grande representação em Balada da Praia dos Cães, filme de Fonseca e Costa.

Não conhecerá a noite que acaba de assentar praça no nosso quintal.

Vigoram já os candeeiros públicos, cúmplices da melancolia da hora.

Também é noite no Bairro Azul – e em Tavira – e em Abrantes – e em Vagos, onde mora agora o meu amigo Quico Correia.

A noite é a Nação mais próxima, agora que escrevo enquanto ela, no quarto com a mais velha das gatinhas, descansa de um dia trabalhoso.

Estou aqui e penso em séculos diferentes.

A televisão trabalha baixinho.

Vejo casas que não são daqui, visito cidades que nunca pude ver.

Ou vejo cidades e casas que nunca visitei.

29 de Abril de 1870 – inaugurado no Rossio de Lx. o monumento a D. Pedro IV.

S/d é o que aprendo, por Nemésio, ter o poeta Manuel Laranjeira desabado a Amadeo de Souza-Cardoso:

Os meus nervos? Mais serenos: uma tranquilidade pessimista. Marco Aurélio diria que eu estava no caminho da sabedoria.”

Bem posto: “…uma tranquilidade pessimista.”

Como também (muito) bem posto é isto seguinte do Professor Nemésio, à arte poética se referindo:

…actividade humana inutilitária e utópica, (…) a poesia (…)”

– pois, de facto e deveras.

A 17 de Dezembro de 1952, já o mestre açoriano (um dos maiores de sempre da Língua Portuguesa, sem dúvida alguma) lamentava, a propósito da morte de Teixeira de Pascoaes, que a obra do grande poeta amarantino andasse

publicamente nivelada com os subprodutos que gozam do favor e da ignorância colectivos.”

Pois – como tanta trampa da treta hoje, ainda e sempre.

Esta manhã, morreu Solnado, que não era poeta.

Disseram naturalmente bem dele.

Mas este é um País relapso e contumaz no crime da ignorância.

Para mais, cada vez mais pimba: ou seja, orgulhoso de ser ignorante.

O senhor Jonas concordaria comigo.

Tenho de lhe ler isto quando ele vier para o chá, se vier – e a esposa com ele, pobre D. Matilde Pascoaes.

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