Monday, August 31, 2009

Instruções para Bocejar em Concertos ou em Esposende


Souto, Casa, noite de 31 de Agosto de 2009

(desconheço o Autor da fotografia e a datação da mesma)

Tenho a consciência disponível como um trapo de cozinha. Penso que foi em Ovar o acidente com o carrossel, feridos mecânicos, nenhum morto. Aquelas tardes ante o repuxo luminoso abrindo caminho para a Régua lá foram à vida. Voltas cheias de sensatez pela margem direita do Pavia, depois de duas ou três ou mesmo quatro igrejas, também. Sub-instância: por aqui. Modo, atributo. Facilidade, trapo móvel, esparadrapo. Não, Ovar não, Esmoriz, Esmoriz sim. Aquele homem de olhos castanhos igual a um pardal, um busto de pardal cabeceando ao frio da manhã avenida a cima a baixo, pronto a enfileirar na galeria dos gessos mais anónimos. Perto dele sempre, pátios tomados pelo panasco e pela silva, entre pedras que contiveram gente, alguma dela académica. Estive em Esposende e em Vila do Conde, nesta vida. Em Santiago do Cacém e em Queluz. Em Benfica e na Reboleira. A estátua do Bispo devorador de criadas imaginárias, a felicidade ranhosa dos misantropos, o vórtice-vela dos mortos-de-cera. St. Ives de Cornwall, as pedras roendo as águas e as aves, as velhas duras como músculos de velhas, duras como ser verdade que a inteligência e a sensualidade estão ligadas como aves a árvores a mais aves mais árvores. Dias e esplendores, nenhuma interrogação grave. Despedidas serenas, entre S. Pedro de Moel ou do Sul, dá o mesmo, ou Vieira de Leiria, a ridícula casa com telhado para neve em frente à praia de Pedrógão. Atitude entre pinheiros, merenda breve de frango assado e tiras de queijo, fuga em pleno tufão de granizo, os cetáceos hidráulicos fumegando na linha do mar, outra tarde sem aviso. E a caminho disto-agora, todo o cuidado é pouco. Aves, abelhas, velhas, ovos. A Plath, o Lowell. Canteiros com flores cujos nomes declinam o vento em sílabas, criancinhas absortas como juncos, castros e ínsuas, os clássicos descascados como cebolas, ler em cozinhas, bocejar em concertos, decotes sardentos e lufadas de pó-de-arroz, em Ílhavo também estive, não pensei a tempo de Vagos, de Carromeu, de Vilamar, de St. Ives. Um homem preenchendo uma gabardina parda, de passagem em revoada pelo outono final de uma praça, transidas de frio as colombinas sem comida nem passado, a domesticação das vozes maníaco-deprimidas a caminho da farmácia ou do bergantim, do lobo-do-mar ou das meretrizes espalhadas pelo leito da avenida como despojos de coral. O Garção, o Miranda. Em Tavira e em S. Bernardino.

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