Tuesday, August 04, 2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (25)


António Nobre e Stanley Holloway


Objectos para Deixar em Inverness

Souto, Casa, 3 e 4 de Agosto de 2009

Como é admirável a paciência dos objectos que, sendo a casa, esperam em casa que os e a deixemos a sós. Penso nunca ter deixado de perceber-lhes o jogo, a atitude, a estratégia. Fazem-se passar por objectos, pretendem ocultar deles mesmos uma humanidade que lateja, esconder de nós quem os trouxe e no-los deu, quem os fez, o que quis de nós com eles. Este pires com rosas de cromo, este cinzeiro de baquelite, esta pedra do campo, esta agenda com tantas urgências rabiscadas, esta garrafa de óleo alimentar, este livro de Caldwell, este lápis maduro como uma nuvem carregada sobre um campo em que cavalos, ou cães.

Chuva azul em os dias frios de Inverness, noutra vida, em outra talvez futura talvez vida. As vozes das gaivotas como fios eléctricos redigindo o ar alto sobre o lago, cantoneiros locais queimando o tempo em jogos de cartas com genebra e cerveja preta, recortes de títulos desportivos e religiosos nas paredes de madeira, fotografias de caçadas nas paredes de madeira, o lume de coque no fogão de ferro do canto, o vento do entardenoitecer vibrando as chapas metálicas dos abrigos, vergando os cocurutos das árvores que marginam as vias.

Num dia frio e bonito, com Stanley Holloway a ver os anões no cemitério raso, fora do Tempo: podes vir comigo.

Há pouco, ouvi que tocavam piano algures dentro de uma casa invisível. Senti as frases da música, que era lenta e imparável como um rio magro. De onde estou, vejo cavalos vindo devagar por um carreiro de terra dura. Um deles traz uma estrela amarela na testa. Vêm sós, atrelados ao vento apenas. Preparo água para o primeiro chá do dia, há dança de ar no limoeiro do pátio, é um cedro. Talvez sejam afinal cães, os cavalos, mas tenho de dar realeza à realidade. Também é verdade que os objectos nos guardam em casa, sítio de onde podemos partir para Inverness sem sair. Tudo se escritura na atenção, sem mor cuidado.

Onde estou, revive instantes vivos o senhor António Nobre, o solipsista de Paris, bom poeta, decerto equivocado quanto a Alberto de Oliveira, mas faltará sempre o conhecimento do teor dos mútuos postais do Diário Anto-Alberto, que Alberto, por respeito, mandou destruir postumamente. “Caganifâncias”, enfim, peculiar expressão epistolar de Junqueiro remetida ao ex-maior-amigo de Nobre a propósito dos mexericos influência/não influência Só / Os Simples, em 1892. E como diria Holloway, se os dissera, os versos de António Nobre? Mas em 1892 Stanley era um infante de dois anos apenas, ou nem tanto, posto ter nascido no primeiro de Outubro de 90 e o ter visto a luz da publicidade em Abril desse ano, de Paris para o mundo. Mundo-mudando dígitos, o 1892 da primeira edição do livro mais triste de Portugal passa ao 1982-ano da morte de Stanley Holloway, uma dúzia de anos depois da aparição cameo como coveiro em The Private Life of Sherlock Holmes (de Billy Wilder, 1970, com Robert Stephens, Colin Blakely, Genevieve Page, Mollie Maureen e Cristopher Lee, entre outros). With a little bit of luck, enfim, sempre viveu 91 anos, o pai da Eliza Doolittle de My Fair Lady (com Jeremy Brett no/na pa-pele de Freddie Eynsford-Hill), do mesmo ano em que finalmente nasci pela primeira vez.

Guardarei o que me guarda, de Inverness para o mundo.

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