18/09/2020

VinteVinte - 53 (conclusão)

53.

 

ALGUMA ARTE EPISTOLAR

EM MONTRA PRÁTICA

 

Coimbra, quinta-feira, 14 de Maio de 2020

 

 

III

 

Em postal imaginado, fixo os poucos metros que levam do jardim-parque à fita já azul do estuário. Damas enchapeladas tipo Lisbonne-à-la-Paris passeiam devagar com escolta de caniche & criada. Cavalheiros-cartolas de artol’aburguesada fidalguia refrescam o palato enxuto do charuto com grandes balões de conhaque aquecido. Irmãs-da-caridade adejam como mariposas velocíssimas por as esquinas que Deus jamais perde de vista. Já lá vai, graças a Ele, a influenza-espanhola que só pode ter sido Ele mesmo a soprar, aliás. O postal resiste, todavia, a blasfémias. Estou em plena re-visão de clarões instantâneos, chispas talvez do ócio confinado & da imaginação desbraguilhada que resulta do & no vício dos versos. Não deixa de ser bonito, o conjunto: caleche, orchata, dispepsia, taful léxico d’antanho que esburgo em transe tranquilo. E agora isto assim:

 

Em vez de postal imaginado, encontrei na caixa-postal, em material & substantiva realidade, três cartas. Não foi o carteiro a trazê-las: não vêm estampilhadas nem carimbadas. Senhoras diferentes com objectivo comum as assinam. Vereis, ou lereis, que são textos delicados, suaves, pertinentes até talvez. E atenção: manuscritos, não fotocopiados.

 

A PRIMEIRA

 

(Endereço completo do remetente)

 

“Ex.ma (Senhora)…

 

Eu moro nos arredores de X. Visto que não consegui falar consigo pessoalmente, gostaria de lhe transmitir uma mensagem importante por meio desta carta.

O folheto anexado contém parte dessa mensagem. Tanto eu como outras pessoas temos o prazer de participar voluntariamente em mais de 235 países, sem fins comerciais ou lucrativos.

O nosso objectivo é ajudar as pessoas a obterem respostas práticas e verdadeiras a perguntas que muitas vezes faremos a nós próprios.

Perguntas tais como:

«Porquê tanta maldade?»

«Quem realmente governa o mundo?»

Participo nesta obra educativa porque estou realmente interessada nas pessoas.

Sinta-se à vontade para entrar em contacto connosco no endereço acima transcrito.

 

Atenciosamente,

Y.Z.”

 

A SEGUNDA

 

(Endereço completo do remetente)

                                                                                

“Prezado morador:

 

Visto que não foi possível falhar-lhe (sic) pessoalmente, venho por este meio trazer-lhe uma informação importante.

Acha que é possível ainda vivermos algum dia sem doença, velhice, ou até mesmo morte, nesta mesma terra? Para muitos é impossível, mas note estas palavras antigas: «E enxugará dos seus olhos toda a lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor. As coisas anteriores já passaram… E eis que faço novas todas as coisas… Escreve porque estas são palavras fiéis e verdadeiras…» Revelação 21:4-5. «E nenhum residente dirá, estou doente. O povo que mora nesta terra são os a quem se perdoa o erro»… Isaías 33:24.

Há esperança de que muito em breve o nosso Criador irá mudar completamente o cenário mundial para um mundo melhor, a verdadeira vida, conforme prometeu á (sic) muito.

Quem irá viver nestas maravilhosas condições? Temos muito gosto em ajudar a ter mais conhecimento do preposito (sic) de Deus para a nossa maravilhosa terra.

Sinta-se à vontade para contactar-nos. Em breve voltaremos para falar-lhe pessoalmente.

 

Atenciosamente:

W.K.”

 

A TERCEIRA

 

(Mesmo endereço & da mesma W.K.)

                                                                                

“Prezado morador:

 

Visto que não foi possível falar-lhe pessoalmente, eu vim por meio desta carta trazer-lhe uma informação importante. Acha que Deus realmente se importa connosco?

Vivemos num mundo cheio de crueldade e injustiça, o que leva muitas pessoas a se questionarem sobre este assunto. Também muitas religiões ensinam que o nosso sofrimento é da vontade de Deus.

Mas o que realmente a Bíblia ensina? Deus nunca causa a maldade. «Longe está do verdadeiro Deus agir iniquamente, e do todo-poderoso (sic) agir injustamente»… diz (sic) 34:10.

Deus tem um propósito amoroso para os humanos. É por isso que Jesus nos ensinou a orar: «Nosso Pai nos céus… venha o teu reino. Realize-se a tua vontade, como no céu, assim também na terra.» Mateus, 6:9,10.

Deus se importa tanto connosco que não mediu esforços para garantir o cumprimento de seu propósito. «Porque Deus amou tanto o mundo, que deu o seu filho unigénito, a fim de que todo aquele que nele exercer fé não seja destruído, mas tenha vida eterna»… João 3:16. Isso suscita então outra questão pertinente: «Porque Deus tem permitido o sofrimento?» Gostaríamos muito de o poder ajudar a entender e ter mais conhecimento exacto sobre o que realmente a Bíblia ensina.

Sinta-se à vontade para entrar em contacto connosco no endereço acima.

 

Atenciosamente:

W.K.”

 

As cartas acima transcritas quase me comoveram. Sei quem me as pôs no correio. Vira-as numa rua que em piores anos habitei. (Não, não são de hoje. São verdadeiras – excepto nas abreviaturas onomásticas, que por respeito inventei – mas chegaram-me às mãos há tempos, outros em que ainda não era minha esta casa.) Reencontrei-as hoje num caderno mais ou menos recente. Manuscrevi-as, em cópia leal, tal como me chegaram às mãos. Quase me comoveram – disse. Sim, a sério. Eram duas senhoras que, a par, tocavam campainhas. À falta de atendimento, entregavam as cartas pelas ranhuras das caixas-postais. Recordo-as bem: uma deveria ser da minha idade – velha, portanto; a outra, novinha: talvez de idade intermédia às das minhas Filhas – na primeira metade de seus vintes. Por ali andavam, ao sol inclemente como ao chuvisco provisoriamente perpétuo de tardes & manhãs inumeráveis (mas que Deus numerará, contando com elas).

Tal como elas, é também a livros que me amparo. A diferença é elas só terem um (ou Um) por verdadeiro. Somos de diferentes cristianismos, elas & eu. O delas é mais seguro, mais antigo, mais documentado – e muito menos incerto. O meu é falível, titubeante, raquítico – e muito mais decassilábico. Mas esta é a menor diversidade. Há uma bem maior: Deus. Elas têm Um; a mim, Nenhum me tem. Vivamos (por enquanto), bebamos (se houvermos) & amemos – mas nunca por mais de 20 euritos.

 

IV

 

Rematei o capítulo anterior com alguma leviandade, verdade seja dita. Talvez o meu agnosticismo seja débil disfarce de inveja – inveja daqueles que se amparam à sobrenaturalidade, à ânsia de explicar o inexplicável (& inexplicado) desta merda toda chamada Vida. Talvez sim. Talvez não. Acho que, brilhantes bestas embora, bestas somos. O corpo, insuficiente como é, não basta. O real é frio. As estrelas nada têm de antropomorfismo. Adorar bonecos é aceitável na infância mimética – mas nas procissões parece-me carnavalesco, pueril sem a desculpa da infantilidade. O Deus Católico tem uma Mãe que é Virgem e usa coroa de ouro quando visita pastorinhos rudes como a pedra-pomes. O Deus Muçulmano & o Deus Hebreu andam há milénios a fazer de Tu-Abel-agora-depois-Caim. O Deus dos Vegetarianos é a Couve. O dos patuscos Budistas apanha nirvanas com aguardente-de-arroz, sendo por isso o que eu talvez subscrevesse em caso de muit’aflição – o que m’ainda não é o caso.

E sobretudo: que Música teria nascido de Bach se este não tivesse a Igreja por patroa obrigatória? Que teria pintado, no mesmo caso, Michelangelo?

Basta de iconoclastias caseiras, basta. Estas semanas de confinamento doméstico não mudaram muito, até ora pelo menos, a minha vida – continuo com falta-de-quorum, à maneira das assembleias-gerais das associações recreativas de província. Não o lamento nem o mijo contra o vento. Siga.

 

V

 

Recolho visões – mormente verbais, mas não exclusivamente.

As mais aprazíveis lastram – como me parece natural – um tipo suave de retroactividade mental. Algumas deste tipo mesclam bem factores meteorológico-territoriais com alguma constância. Exemplarmente: neve rutilante, pedras verticais & negras, casas de madeira reforçada a aço, lenha resinosa, muito pouca gente, alguns animais & abundância das duas águas, doce & salgada.

As menos agradáveis não têm todas a ver com a morte. Esta última é, aliás, credora de menos desconfiança do que a merecida pela vida. Há entre elas rostos conspurcados pelas próprias bocas & denunciados pelos próprios olhos. Bocados de frases materializados no ar como fumos fabril-celulósicos. Indecências gestuais cuja pornografia não é de cariz sexual mas teatral.

Trabalho-as todas em permanência. Há décadas que dedico o meu tempo quase todo a tal recolecção. Ainda não consegui uma obra maior feita do que, todas elas, me dão. Tenho, isso sim, logrado fragmentos ominosos – mas não muitos, nem muito poucos.


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Canzoada Assaltante