Thursday, August 02, 2012

Rosário Breve n.º 270 - in O RIBATEJO de 2 de Agosto de 2012


© Alexei Bednij



Programa meu para tarde de Agosto

Surpreender a ilusão da (p)aragem do Tempo em recanto de quatro árvores sobre pano de relva com moldura de sebe. Na tarde encalmada, sentir algum raro pássaro em silêncio e algum fio de água em murmúrio.
A essa sombra benigna, porejar a enxúndia da melancolia sinelaboral, lancetando a escrófula da tristeza a fio do estilete do bocejo, cuidando todavia de não por demasia ceder à suculência dos, se não pútridos, ao menos insípidos humores de tanta metáfora seguida.
Aos pés, em balde com dados de gelo à guisa de copo para um poker de alumínio, deixar que vá glaciando-se a botelha de um verde-branco bem picotado a gás.
Rente à bebível ampola vinominhota, e largo como um abraço, um cesto de fruta em profusão como dois abraços, cuja cor amadura o açúcar em seiva: a granada do abacaxi, a boquinha-de-riso da cereja, a marreca eréctil da banana, a maçã rubicunda como um rosto em cólera, a romã ourives pejada de ácidos rubis, o coração picotado a verde-grainha do morango já grená – e uma talhada já trincada de melão, que à mão se mordeu para lavar (ou levar) da boca a ardida palha tabágica do cigarro pós-prandial.
Sem outro mobiliário que o do chão para assento e o tronco de uma das quatro árvores a jeito de espaldar, fazer por nada fazer, pois que o calor é de um catolicismo alto como um campanário cego de cal à distância do incêndio da fé. Em refractado revérbero, o tijolo de existir é branco como um giz árido.
Paginado a folhas pela brisa que às copas despenteia, o firmamento é de um azul profundo para cima que a espaços azuleja a vista semicerrada. E a talha (ou toalha) que nos atirou o deus do Verão é, jamais nos caindo em cima, de um bálsamo por assim dizer olímpico que nos foge para a frente (de) quem atrás (nos) perdemos.
O silêncio vem reiterado pelo cegarregar do ralo, que de oculta cova musgosa telegrafa interminavelmente sabe-se lá que sideral radiação semiótica. É portanto, o silêncio da tarde, de uma opulenta dicacidade.
Respirando devagar como um fole já menos novo do que antigo, o esmalte do ar chega em cristal de lamber a haustos.
Os verdes sufragam virentemente os azuis e os brancos da paleta, não iludindo porém o ominoso loureiro outonal ult’anterior do costume.
À distância dextra, espargir átomos de pão à beira do carreiro proletário da formiga. À mão esquerda, em cujo anular fulge a feraz abelha de ouro da anilha matrimonial, permitir que durma em o mais cândido abandono de animal que não escreve nem precisa de.
Topar em cada vespa açucareira a peremptória obstinação da avioneta. E em cada borboleta o tropeçagar ébrio-assimétrico de uma vida que – como todas – só dura uns tão poucos dias. Então finalmente adormecer – cuidando tão-só de não adornar o barco do corpo para cima do cesto da fruta ou do poker do vinho frio.
Se nada disto puder (como não pode) ser, rejeitar então de todo a ilusão de alguma vez o Tempo parar sem ser por razão de morte própria. E, não parando Ele, passar antes a tarde de Agosto na bicha do centro de (des)emprego, antro pelo qual se não demora a formiga, a quem o pão só cai do céu em crónica de ocioso.

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