Thursday, August 23, 2012

Tarde e Manhã de Ontem, quarta-feira, 22 de Agosto de 2012


MANSO PUGILATO

Leiria, tarde de quarta-feira, 22 de Agosto de 2012

I

Recorda de olhos cerrados uma aurora poalhada de humidade descida que tornava pardas as primeiras flores vermelhas do ano.
Sabe-lhe bem a recordação, mesmo sabendo-a postiça: sabor e saber não têm de coincidir.
Segue-se-lhe na pantalha obscurecida um maná de clarões brancos, entre os que alguns rostos.
Os cheiros vêm depois – ou talvez já lá-nele fossem durante: o da fruta no ápice do Outono, quando a embriaguez das vespas as leva alegremente aos umbrais do fenecimento;
e o da rapariga que lhe deixou na língua o conhecimento da gazela molhada.
Estas coisas assim podem acontecer à plena publicidade da luz, à mesa de um café como num banco de jardim.
Basta cerrar os olhos para ver, cheirar e levar à Língua.

II

Nunca irei à Toscânia.
É da minha condição.
O Raul tem um Scania,
já foi ao Cazaquistão.

III

Empalideça de vez a tez do homem
que, ante um rio, do tempo tão natural
cópia, a foz não queira conhecer a tempo
de o instante a montante de quando jovem
viceje um pouco ’inda, ’inda que, mortal,
jusante lh’a finifoz dê passamento.

IV

Prostra-me o perene renovo da Natura, cujo esboço de si mesma nos ridiculariza a caricatura de a nós nos termos por definitivos, a começar pela estupidez de Deus e a continuar pelo esterco das unhas.
Conheci em uma aldeia de sopé de serra um padre alto e manso que lia bons romances ditos policiais, pelo que, e sem mais, se me tornou fácil suspeitá-lo adepto fervoroso de dar-a-outra-face-o-caraças-mas-é.

V

Passa na galeria uma família tipo semente-de-arrepio.
Cheiram os cinco a cartão mijado e a passitos de rato sobre chapa de zinco.
Mas nem Wall Street nem a Cova da Iria podem acudir a tudo, valha-lhes God.

VI

Não knockoutarei hoje, não ’inda, o meu adversário canhoto.
A culpa vista ao espelho não torna o espelho culpado.



À MANEIRA DE TÓ PEREIRA

Leiria, manhã de quarta-feira, 22 de Agosto de 2012

Mil fontes sangram a terra, revivendo-a porém, que a não matando. Sol e lua sempre fizeram topless, para compreensível desespero de Sua Santidade Vestida. Etelvina preenche todos os dias o cupão da página 47 do jornal para ir às compras de borla uma vez na vida. Crianças entre cereais altos que o vento cresce. Assim se começa o dia.

E o dia virá, o dia verá.
Já não vejo tão bem ao longe como nunca vi.
Somos quase todos da linhagem possível.
A criadagem pecuária também é gente.
António Patrício foi a Macau, viu-se lá morto: O Fim etc.
Por vezes os recursos escasseiam de vez, é no que (não) dá.
Impressões brandas, como as dos dedos, acontecem em seda.
Os telefones móveis gritam na rua indiferenças.
Orgulho familiar, ostentação material, denotação seca, bebés de leite-em-pó, dificuldades acrescidas & crescimentos difíceis, patrulhas marítimas, saudades em terra, excitação das peles, gastos com o-comer-o-vestir-o-calçar por causa do-cavalheiro-da-senhora-e-da-criança, antigamente eu era capaz de arder horas-a-fio nisto, hoje continuo a ser. E a-ser. E por-ser.
Todos temos de vir-a-ser.
Todos deveríamos ter e ser do dever de ver.
A vida está por modas, ao contrário do que se queixa o Comércio.
Um cão preto cruza a rua pela passadeira.
Uma senhora marreca de blusa roxa chamada Fátima.
A rapariga do rent-a-car a caminho do multibanco.
Ainda o sol não abriu e já as duas de óculos fumados, a Fátima como a Rent.
Basiliscos e meteoritos fazem sonhar os ovniófilos.
Adormeço todas as noites à tremeluz da vela perfumada que a mulher me devota.
Poternas castelãs, trincheiras em campo francês, a carneirada citadina trânsito-engarrafada à americana nos drive-in da comida plástica à americana, a ucraniana boazona da pastelaria que faz concuspiçar os caixeiros-não-viajantes à hora da bica e a toda a hora também, os calendários com mamas das oficin’autos, tenho pela poesia medieval um respeito que me faz quase aceitar o drive-in do santuário de Fátima, não é esta da marreca roxa, é a Outra.
O grupo de Bloomsbury, o Café de Flore, Acapulco, o Palácio da Pena, homens de sandálias & mulheres de botas à militar, ao longe as chaminés fumando domesticidade para mim perdida por ancestro, Casais Monteiro recebendo cartas de António Nogueira, esse ortónimo afinal nuclear.
Reptilinhas de tráfic’auto’strada rumo ao sul de nenhures, paragem em Vendas Novas para uma bifana e uma s’mole.
Ontem não escrevi ainda isto.
Washington Irving, Espectros:

começava a desejar-se a mil léguas do marquês e da sua implacável memória,

são coisas que acontecem até a um para consigo mesmo.
A Cidade nem está a dormir, nem acordada.
Uma espécie de limbo nos purgatoria noite & dia.
Redactor de café, solidarizo-me sem gesto em sonambulismo.
Já nem febre temos, ó meus amigos que não exclamo.
Máquinas de trepidar ventres colesterolizados em os ginásios à americana das capoeiras de cristal dos sho-foda-se-pingues-centers.
Mas também é verdade que crianças pelas praias repercutindo quiçá a mania que o céu tem de dar estrelas, e o campo, flores.
Sonhei hoje com a minha mais nova, não fui capaz de lhe atribuir idade, é porque ela tinha várias no sonho, todos temos, todos somos sonhados.
Mil terras sonham ter uma fonte.
Temos todos duas na cabeça.
Em política justa, a cada falso – cadafalso.
Mas ele não há maneira.
Na minha Primeira Rua, lá longe, longe já do diad’hoje, hordas de operários fabris ao relógio eram, passando, o meu calendário de cada dia.
Manhã muito cedo, cheirava a cafeteira chilra e a pão escuro com margarina.
As fábricas engoliam-(n)os.
A caminho do almoço, cheiravam a coisas feitas.
De regresso, cheiravam a bacalhau e a nêsperas.
As fábricas digeriam-(n)os.
Ao fim da jornada, cheiravam a dia ganho.
E eram formosos em sua fadiga, que eu assimilava, quê?, aos cinco, 6, set’oit’anos.
Eram os meus chéguèvaras, os meus eusébios, não sei dizer de outra maneira.
Ist’hoje é muito diferente por já não haver operários.
Ist’hoje, quando os há, são “colaboradores”, à americana, p’x-tá-claro.
Mas Camões:

Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
qualquer alma farão segura e forte;
porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte,
têm do confuso mundo o regimento.

Pois é, Luiz, hás-de arranjar muitos clientes assim, vai-lá-vai.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…

Velho Álvaro de Campos, que escapa de estar morto por nunca ter vivido…

Homenzorro, além, de bigode ruço e cara vermelha qual bandeira de vinho: quanto, confesso, gosto eu de portugueses assim!
Navegadores todos eles – e conquistadores e missionários e descobridores e escrivães e arquitectos e adamastontos e tantos!
Até que um dia a congestão da feijoada os alcácerkibiriza de uma vez só, partidos no ar como uma rola baleada, ou mastro esgalhado em dois a sudoeste-nau de nenhures.
O cão preto retorna pela mesma passadeira.
Encheram-se menos este ano as caixas esmoleres da Cova da Iria.
Entreguei o jornal do dia a uma preciosa que veio da cabeleireira há minutos, cheira a laca quente e a pés frios, quer ser ruça de cabeça como o barrigudo da cara vermelha é de bigode.
Lamas férreas patinham oxidações osteoporóticas.
A carteira a prazo lê como eu: duas vezes cada nome (papel, caixa do correio).
Hoje Há Filetes de Pescada não sei onde nem para quê/quem.
Fritam-(n)os as etelvinas-cupões,
ó Luiz de Campos!,
ó Álvaro de Camões!

*

(Certa manhãzinha, completamente sozinho, encontrei completamente sozinho o Tó Pereira da sapataria. Fomos beber uma malvasia. Cada um pagou a sua, como se deve pagar o dia.)


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