Wednesday, August 22, 2012

A tarde de ontem, terça-feira, 21 de Agosto de 2012




AI NÃO, QUE NÃO CHORA

Leiria, tarde de terça-feira, 21 de Agosto de 2012

(Sou apenas coevo do que escrevo.
Só posso ser contemporâneo do que leio.
Ao resto, por essência, não pertenço:
nem sequer ao que sinto, nem sequer ao que penso.)

*

À lareira do sol, em meu escano do Café da Rita.
Bebo uma cerveja fria, leio o jornal sem pressa.
Pela galeria, passa uma mulher dotada de pogoníase, coitada.
A vida parece ser isto, de vez em quando: o diáfano lençol de sol sustido pelo leito do mundo, a internacionalidade do arvoredo içando o grafismo maiúsculo da sintaxe natural, o caixote de betão onde funciona uma casota de crédito, a necessidade que a Beleza tem de ser vista para ser-se em beleza, o trapo estampado a negro & rosa de Carlota Abreu (esta que exala aroma de baunilha à passagem-gueixa), a finitude assegurada de tudo & mais alguma coisa, a vela da consciência tremulando recantos de móveis perdidos nos divórcios, a tenacidade melíflua do suor na sesta, o cravo negro do púbis feminino fazendo-se corvo em descampada praia invernal, as mulheres & os homens de Arazede (Montemor-o-Velho), Baltar (Paredes), Cogula (Trancoso), Degracias (Soure), Estreito (Oleiros), Freiria (Torres Vedras), Gelfa (Vila Praia de Âncora), Hortas (Póvoa de Lanhoso), Ilha (Pombal), Junqueira (Miranda do Corvo), Luzianes (Odemira), Mamodeiro (Aveiro), Nabais (Gouveia), Outeiro da Cabeça (Torres Vedras), Ponte do Abade (Viseu), Quinta das Pretas (Loures), Rabo de Peixe (Açores), Semideiro (Chamusca), Triste Feia (Leiria), Unhos (Loures), Vilela (Coimbra), Xisto (Arcos de Valdevez) e Zavial (Vila do Bispo).
Ah sim, pode ser parecida com isto, a galeria-vida.
Se esquecer não acontecer depressa, dói no lembrar devagar.
Ou então não dói, é só matéria gasosa para arder em sonhos.
Ou então romancear (mas com dignidade lapiseira) a existência de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, por exemplo, com colaterais lampejos de W. Storck.
Colher do mundo, sem porém da terra decepá-la, a Grande Rosa.
Inventariar a tipologia dos incêndios: os deste ano no Algarve, os de Cupido, os da Ânsia, os da Vaidade, os domésticos, os da Austrália.
Receber ao colo um gato sábio, dele à flor da mão colhendo o cabelo vivo e rumoroso.
Ser tão-só coevo do que se lê, contemporâneo do que se escreve.
Dar uma saltada ali ao Alentejo a assimilar os brancos mais ígneos, os mais ardidos ouros-ares; ou ao Caramulo, onde o Inverno tempera ainda a malvasia da tuberculose memorial; ou a Trancoso, onde no dia 1 de Outubro de 1981 comprei um maço de Porto e uma data de livros do Somerset Maugham a cinquenta paus cada na livraria em frente à Barbearia S. Paulo; ou ao outro S. Paulo, o Café que à Casa Branca, Coimbra, nos permite a todos encontrar, pela tardinha, um Salazar que é bom, por ser Luís e ser quem é; ou à Praia do Pinhão, Lagos, onde fui feliz com a força toda, nada nem alguém podendo o que for contra isso; ou ao Bairro dos Actores, na lisbonense Alameda, comer iscas com batatas cozidas à casa-de-pasto daquele casal transmontano para sempre que há quarenta e picos anos por ali transmontanava seu interior exílio; ou a casa da minha Mãe; ou à Casa onde ela ora mora e se demora – ou fiquemos (por) aqui, que um homem não chora. 

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