Sunday, August 19, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - fim do Caderno I



32. À IMPLACÁVEL LUZ

Coimbra, terça-feira, 6 de Julho de 2010

Páginas maravilhosas, as de uma carta dirigida por Pessoa ao poeta modernista brasileiro Ronald de Carvalho (integrou o clã do número 1 da revista Orpheu). A data-espaço da missiva é Lisboa, 29 de Fevereiro de 1915. Pérolas do gigante português:

– Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais afastadas e as melhores horas e só fixar aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. O resto é só a brisa que passa e não tem outro aroma senão o momento que rouba a imortalidade dos jardins. (…)

– A sua imaginação, doentia e delicada, é uma princesa que olha das janelas o luxo longínquo dos tanques. Vejo que sente os reflexos. Eles são com efeito as melhores horas da água; e decerto que as mais belas são aquelas, em jardins ainda do século dezoito – onde a tristeza de uma civilização morta bruxuleia ainda, como um gesto na sombra, na sombra rápida da água que se dissipa. (…)

– O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; (…)

– (…) no jardim antiquíssimo quando o Mundo não tinha criado ainda a necessidade de ter sido criado por Deus. (…)

– Ficou-nos a alma, como um exílio inevitável, e nós escrevemos versos para nos lembrarmos de que fomos…

*

A implacabilidade da luz é a testemunha mor (não: única) da chegada ao fim do primeiro caderno manuscrito deste Ideário. No Café-Bar S. José, no piso térreo do Girassolum, esperando uma pessoa amiga, AA, que me traz livros que foram da saudosa mãe dela, a D. LA. Receber livros é bom. Destes então, a fundo perdido, como ela diz, melhor. É uma expressão competente para ser sinonima da minha até-ora vida: a fundo perdido. Perdido & achado, seco & molhado – enfim, nada de lamúrias nem de umbilicalismos solipsistas, que são, afinal, a marca-de-água dos pseudo-artistas (coimbrinhas e não só).

*

Falava-te da implacável Luz, ela
toma Ouro-de-Água os corpos todos
da gente viva, esta que comunga
Coimbra e o Mundo em Fogareiro.

É muito um manso esoterismos, isto
de ser Inca-Egípcio no Calhabé.
Fulvas, as Divorciadas ocorrem
como estampidos de Louro-de-Coiffeur.

Os Reformados dos Serviços Públicos
penduram-se do Expresso e da Caras.
Há boniteza em isto, que o Ser Feliz
vem só do Estar Inconsciente Anos a Fio.

Índices: aros de ouro de finos óculos,
arrumadores hepático-tisnados (mourama
do Capitalismo), banhas ventrais de uma
alvura de toucinho, pés enchinelados

atirando unhas cuidadas em spas,
notícias do Nada arribando a nenhures,
bigodes encerados a muco nasal e Marlboro,
dentições acrílicas sorrindo pastéis-de-nata.

FIM DO CADERNO I

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