Wednesday, August 29, 2012

Ontem, terça-feira, 28 de Agosto de 2012, pela tarde


Alberto dos Santos Abrunheiro pintado em azulejo por seu irmão Daniel



CARAÇAS DO ALÉM

Leiria, tarde de terça-feira, 28 de Agosto de 2012

A terça-feira de Leiria decorrendo vai com a humanidade do costume. O Abreu acaba de sair da Rosa com a mulher, hoje para satisfação dela só bebeu três branquitos, é um consolo ver a Fátima feliz, são bons rapaz & rapariga.
Já por aqui não anda certa andorinha de saia que fazia limpezas e, dizem, se prostituía para comer, vestir & calçar. Dizem-na uns em Campo Maior, outros que em Setúbal, no Luxemburgo quase todos.
Dou ’ma marrada de boca na cerveja nova e penso logo de seguida no destino talvez feliz de Somerset Maugham – não sei porquê e se feliz mesmo também não sei.
Barcos a vapor, daqueles de grandes rodas laterais sôbolos rios que vão: estou daqui a vê-los desarvorando espumas afora sem mim dentro, desde & para sempre.
O sol não se mostrou hoje a si mesmo: murcha é a panda vela da luz cristã.
Eu estava em casa a ouvir o senhor Bach quando o telefone tocou como se já não houvesse ontem: era a minha Irmã, tinha novidades antigas, dessas amarelecidas que só Ela sabe reverdecer.
Liverpool, a portuária, não conhecerá jamais a poesia que pude na Rocha do Conde d’Óbidos.
Também já sei que nunca irei à Jamaica – e que nem perco o sono por causa disso.
A Selma Antunes escreveu que gostaria de que a morte do avô fosse uma pessoa, tal que pudesse vilipendiá-la à força toda: se não era um verso, vale bem por um.
Estas coisas escritas têm a força da irremediabilidade.
Estas coisas escritas têm a força da irremediabilidade, da vergôntea, do funcho quando infantes todos, dos livros de História fazendo mover-se os grandes e os pequenos Mortos.
A terça-feira de Leiria desfaz-se gente que vive à semana anos a fio, pulverizada pólvora ao rastilho do calor quando faz calor, do frio quando faz frio.
E nós?
Vamos ser felizes onde e contra quem?
Diga-me a senhora de sua viva voz,
Mãe.
O meu Tio Alberto guardava em mala de cartão castanho notícias recortadas da insensatez do mundo. Foi o bicho humano mais solitário que conheci. A cabeça dele era uma rosa de pedra. O sabão e o desamparo habitavam-na-no a meias. Vimeava cestos. Acabou no Caramulo, longe de tudo e de todos como desde/para sempre. Não me é possível resgatar esse Agosto de há trinta-e-dois Agostos. Morreu sozinho como um cão dado à decência. Mínimos despojos dele confirmámos do Tempo: ceroulas remendadas ad infinitum, o pente gasto, a muleta axilar, o sapato cambado e único, tinha de pernas uma – porque ninguém usa dois corações. O meu Pai falava dele. Se calhar agora fala com ele: tanta igreja por aí vemos, que alguma há-de ter razão quanto ao caraças do além.
Não assim será, minha Mãe?

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