Tuesday, June 01, 2010

Como ontem ameaçado, regressa a versalhada. Esta é a primeira das últimas páginas de um caderno

Últimos Dias do Caderno Chinês





(Acabou-se-me o caderno que comprei aos chineses.)


I

Pombal, tarde de 11 de Maio de 2010

Uma sombra divide a minha casa em duas
até resto zero.
Uma sombra divide a minha casa em duas
sombras.
A minha casa torna-se rua.
Chove na rua.
Intermitências de sol: alguém
que diz, desejando-as deveras,
boas-tardes,
boas-noites.


Pode a luz de uma pessoa ser extinta?
Pode a luz da vela ser apagada?
Sobrevive a constância das árvores à escassez de vento?
Haverá garças no Nilo?


Décadas em minutos.
E a vida toda em um gesto.


Uma sombra multiplica a minha casa em casas
mil.
Passou entretanto Abril.
De bandas do Castelo, o chamamento mana
da perpetuidade mesma.
Sufraga o jardim seu caracol e sua lesma.


Vigora pelas artérias da venosa cidade
a beleza invencível das mulheres repetidas.
Conta-me este homem já maduro que
levou “a Namorada” a almoçar galo-do-campo
a um restaurante de barragem.
Ora, nós aos quarenta e tal anos já não
podemos namorar. Isso é coisa de
dezasseis a dezoito. O resto é sermos
sobras (sombras, igual) uns das outras, escórias de enganos
com partilha de bens e afinidade de
males. Não é?


Divido o tempo da escrita deste poema maravilhoso
com o redacção de uma crónica
de jornal. Ora chove, ora bate sol. A
menina Liliana deu-me as boas-tardes,
que eu retransmiti, rua mudada, ao
senhor Manuel Rodrigues Cacho.


A minha casa é uma emanação da sombra.
Conheço as ruas, o fervilhar de gentes.
O mesmo teor gentio das ruas subjaz à
precedência da existência em relação à essência.
Vale sempre, porém, a maravilha humorística
das rosas em quintais geridos por gente antiga.
Conheço lojas em que postais e louças
sobrevivem não sei como.
Agora, um raio de sol pintou de água amarela
aquela cornija, onde a pomba prospera e
a humidade tinge.
Agora, o senhor Manuel Rodrigues Cacho
diz que a tristeza não vale a pena.
Pois não pois sim, senhor Manuel.


Como faz (ou como se sente) aquele homem
que aos domingos almoça com mãe que
não gosta da nora?
Como redistribui ele pelos amigos a mágoa
duríssima que resulta de, tendo havido
filhos, não poder seguir gerando-os em
cada gesto?
Bem, isto de facto.


Diz a púrpura, Daniel.
Faz reconhecer o matiz, anda.
Muda tua mesma mesmidade.
Agora morrer não é preciso.


Passa o riquexó de província macaense,
passa o senhor Wenceslau de Moraes caminho do Oriente,
traça o senhor Wenceslau de Moraes a mort’a vida,
garça, haverá alguma no Nilo?


A dureza do olhar desta criança cigana.
Que violência a submeteu a nenhuma poesia?
Como arranjou ela moedas para dois gelados consecutivos?
E agora ela é já igual às que foram amanhã.

2 comments:

Paula Sofia Luz said...

Achas que um caderno resolve isso, para já?

Joaquim Jorge Carvalho said...

"Que violência a submeteu a nenhuma poesia?" Maravilhoso!

É, por isso, fatal como o destino: vou citar-te, em breve, num qualquer fórum onde, como sempre, tento provar a indispensabilidade da literatura. Não é a primeira vez (não há-de ser a última). E não acontece só com versos teus: acontece com os de outros grandes.
Abraço de até qu'enfim!

QJ