Tuesday, June 08, 2010

Últimos Dias do Caderno Chinês (VI)



EM POMBAL, DEPOIS NO LOURIÇAL


Pombal e Louriçal, tarde de 29 de Abril de 2010




Desde ontem, o sol enfebrece. Falta nitidez a este céu. A temperatura apraz, porém. Um rapazinho de óculos à Alexandre O’Neill desenha num caderno pontos de interrogação ão ão. Entre amanhã, 30, e 2 de Maio próximo, o Circo Chen acampa na Quinta das Courelas. Os circos estão para a sociedade como, em notícia, os adjectivos para os factos. Publicidade ao aperitivo francês Ricard num mostrador de casa-de-pasto (Ti São). No Largo das Laranjeiras (a que pombalenses mais antigos chamam Do Bacalhau – por causa do formato da calçada que alberga árvores, bancos e charco em pedra redonda), velhos assombram-se numa placidez reformada.
Afinal, consegui voltar aqui. Mal me lembro de alguma vez Sintra na minha vida – ou Massamá. Ontem é palavra tão remota como Antigamente. Vale-me não ter, ’inda não, morrido. Sobra-me um tempo, presente desde e para sempre, para ser ente. Ente e de tudo isto parente: a febre da luz, a ourivesaria perpétua das laranjeiras, os sisudos sinais de trânsito, as crianças & os velhos, o paradoxo emocional de brisa/favónio/zéfiro que separa o coração próprio dos alheios dele homólogos, o carinho arrefecido das bonecas esperando nas montras dos bazares que as mães voltem a ser filhas, a ardência vitalícia e mortífera dos cancros detectados no Centro de Saúde pelo doutor Adelino Correia, gente jovem nomeada André, Cláudia, Daniel, Diogo, Fábio, Filipe, Frederico, Hugo, Marco, Mauro, Mélanie, Nelson, Raquel, Rúben, Vera e Zeferino, gente avoenga chamada José, Joaquina, Maria, José II, Joaquim, Alberto, Daniel, António, Serafim e Laurinda. O instante dissipa-se na febre e.
De repente, a luz mostra a mui antiga vila do Louriçal, que conventuada foi há trezentos anos por Sua Doida Majestade D. João V, o Luís XIV possível e local. Tenho aqui uma filha. Chama-se Leonor. Anda na vida dela como voam as aves nas delas. A terra dá arroz, laranja, vinha, milho e filhas. Sou o agricultor não pródigo que à casa do campo (nenhuma casa, mas todo o campo) torna. Sinto a presença das flores amarelas, do extenso chão melhorado pelo viço verde dos pastos, sinto o giz vertical da Capela de Santo António, saudades dos mortos que por aqui entretive vivos, o Armando José Oliveira encimando a melanc(o)ólica galeria. Que da minha vida? Aqui ainda vou volvendo, mas – e aonde não volverei? José, Joaquina, Maria, José II etc.
Ontem, em Leiria, expedi e arrecebi informações. Carlos Alberto, filho do extinto senhor Salvador, da casa-de-pasto Monte Carlo, disse-me da morte em Julho (sim, bruscamente, no Verão passado) do irmão. Jantámos lá. Bruscamente, é outra vez hoje, Louriçal outra vez, por umas horas mais. Em outra gaveta do meu tempo, vou escrevendo um livro de nomes. Também uma colecção de colagens próprias em verso. Tenho de ir fazendo coisas assim: primeira e última das minhas vi(d)as, a escapatória é a redacção. Ou: a redacção é a redenção.

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