Friday, June 11, 2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 1 e 2





1. ESCRERREVIVER COIMBRA


Coimbra, 31 de Maio de 2010

Estou de volta à Cidade que, através de um homem e de uma mulher que se amaram, me deu nascimento.
Este caderno abre-se ao sol grande da larga tarde. A luz é toda, mas andam sombrios de economia os rostos dos meus conterrâneos.
Cumpre-me escrerreviver as ruas velhas e conhecer as novas. Ando sozinho – como toda a gente na vida. Já passei hoje à do Almoxarife, à Velha, à Adelino Veiga, à dos Sapateiros, à do Brasil, à Gago Coutinho.
O Mondego é uma veia viva. Apetece tomá-lo aos haustos. Vi uma prostituta tomando o refresco de um vão de escadas, um quase nada antes do Paço do Conde. Vi uma mulher sem um braço a comer um pêssego e a pedir esmola ao pé do extinto Carlos Camiseiro, à Praça Velha. Revi a Casa de Hóspedes Europa – COMIDAS E DORMIDAS.
A tarde é a Grande Rosa Amarela-Branca. Somos dela os insectos, o homem-pulgão, a mulher-libelinha, a criança-joaninha.
Escrevo no Angola, café amado pelas putas pobres da zona. Toca-me um pouco certa ansiedade que só pode resultar da incerteza e da solidão. Sem receio, porém, seguir em frente.
Por exemplo, Portagem adentro até à umbrosa fronda do Parque. A brisa fluvial abençoa. Gente espapaçada a dormir ao comprido dos bancos. Sigo pela Rua do Brasil, longamente, largamente, até ao Calhabé. Soslaio o Campo da Arregaça, depois a Vila Marini: nostalgias sãs. Paro nO Nosso Café para refresco.
Tenho visto muitos homens doentes pelas ruas. Não são velhos, não ainda. Coimbra tem muito de mentes avariadas.
Quantos anos estive fora? E agora – volto a tempo? A tempo de quê? Caminho para os cinquenta, amo os rios e as árvores, as noites nem sempre me são nações benignas.
No televisor do Nosso, ressurge o malogrado Vítor Damas, em acção no Mundial de 1986, no México, contra a Polónia.
Depois, mergulho no Flaubert de Uma Alma Simples e desvaneço-me.

2. COM OS DUQUES DE WINDSOR, SOZINHO

Coimbra, 1 de Junho de 2010

Sol febril da Rua João de Deus Ramos (1878-1953, pedagogo), à Solum. Também febril sempre, Doistoiewsky (Sonho de um Homem Ridículo). É o dia primeiro de Junho. Namoro o fresco do Nosso à luz de uma história de amor de há quase oito décadas: a de Wallis e Edward (VIII de Inglaterra), depois Duques de Windsor, na sequência da abdicação do monarca apaixonado. Michael Bloch compendiou, anotou e prefaciou deles a correspondência íntima. O prefácio é de 24 de Abril de 1986.
Escoro com livros a minha vida. Faço menos mal, essa parte. Releio o senhor Conde de Ficalho (A Caçada do Malhadeiro e outras histórias).
E então desfere-se a noite, a Grande Mãe de todos e ninguém. Boa temperatura, contudo. Amanhã, regresso de um dia a Pombal por trabalho.
E depois, de novo Coimbra, onde me cabe convalescer para ser e opalescer.

2 comments:

fj said...

já comecei a gostar deste "Ideário de Coimbra"!

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Bem-(re)vindo sejas a Coimbra, FêJota!