Sunday, June 13, 2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 5

Vitorino Nemésio - Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978


5. BENDITO JUNHO, À JANELA



Coimbra, sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Quatro mais seis, dez: 4 de Junho de 2010.
De hoje a um mês, é Dia da Cidade. Rainha Santa Isabel etc. Mas hoje, hoje não poderei repetir a quilometragem melancólica do périplo de ontem. Impede-ma este abcesso molesto, este canino que ladra pus por dentro. Às quatro da tarde, trar-me-á a SB uma caixa de anti-inflamatório e outra de antibiótico, bem-haja ela. O outro remédio é maravilha: ler o divino Camilo Pessanha.
Entra na agência de viagens ao lado uma oriental de pernoca alta, branca e gorda. Saltos também altos, cabelo tinto de carvão, saia mínima: um mulherão blindado de saúde, viço, auto-confiança e tal. Do meu lado esquerdo, um casalinho irritante de adolescentes desfecha atoardas vãs como cabaças. O penteado do gajinho é à iroquês. O olharzinho pintado da faneca é tipo é-assim-prontos.
De lacrimosos aguaceiros, nada – que o tempo é de moscas ao sol. Se amanhã me encontrar melhor, hei-de rumar ao cemitério de Santo António dos Olivais. Há décadas que me prometo visitar a campa do grande plumitivo chamado Vitorino Nemésio. (Eia!, vai ali uma tipa de rija carnação assegurada por a moldura mínima de uma blusa de cavas, jambas duras e talhadas a escopro doce, braçais de musculação brunida a melaço francês, cabeleigadura nigérrima, bons óculos fumados de marca estipendiosa, sapatos nascidos para a pisadura de carpetes escarlates. Rico pedaço, Deus lhe segure as fivelas por muitos anos & algarves.) Pois então como V. dizia, em o abcesso amansando alguma coisa amanhã-sábado-5 (faz anos a Belinha do senhor Nunes), hei-de ir a tributar peito e preito ao mestre de Quatro Prisões Debaixo de Armas e de Mau Tempo no Canal.

Às 21h41m, ainda a noite não foi capaz de cerrar dela a glaucomática pestana sobre a pupila anil da tardinha. Bendito Junho. Longe como o nascimento, Vénus mais incandesce quanto mais sobe: durante diamante frio em fogo. De qualquer modo, refrescou um pouco. Troquei no quarto camisa por camisola e chego ao Nosso antecipadamente deliciado pela encomenda de um chá de limão em chávena grande. O primeiro sorvo da infusão beatifica-me de pronto em uma espécie de aura zen. O senhor Manuel e a senhora Adelaide (que gostam de me ver escrever e de me ver ler) não sabem, mas ainda em casa tive de escrever um poema, este:


À JANELA


À janela vendo o que não chove,
a minha vida quer ainda ser mais
do que o meu corpo,
coitada.

Se chove, sendo o que chove,
a minha janela não quer nem deseja,
olha e não é corpo,
em beleza.


Esqueci-me de que amanhã é sábado, dia de dar explicações no Louriçal, depois do almoço na Lagoa dos Matos da Vila. Vou de comboio até à Figueira da Foz, telefono ao João P. e ala para a terra do convento. Modos que ainda não será amanhã que hei-de descobrir onde dorme terminadamente Vitorino Nemésio. Outro dia será.

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