Wednesday, June 16, 2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 8 (a)



8. MAIS PODOGRAFIA, AINDA E SEMPRE, COM VISITA A CASA DA MÃE (a)

Coimbra, segunda-feira, 7 de Junho de 2010


Sinto sempre um êxtase pequenino, uma pequenina glória, no levantar cedo. É como nascer, mas desta vez sabendo o que se passa, incluída a ideia da morte-um-dia. Ainda hoje: abri o olho do lado da cara sem infecção e algo ou alguém se pôs a sorrir com o lado sem infecção da minha boca. Deixei-me ali estar um bocado a armar em avatar. Não foi muito tempo. O Sol era quase. Ainda não era, mas era quase. Bebi em cuecas um copo de água na cozinha comum da casa de quartos. Sentei-me depois no trono de louça para o que desse e viesse – e deu e veio e foi. Então, a terceira das mínimas delícias de renascer: o banho. Sob o chuveiro, é-me sempre gratificante aferir os limites do corpo com esse instrumento de precisão mor chamado sabão. Olho-me para baixo e sei que já fui pequeno e já fui médio e que agora não sou, nunca serei grande coisa. É bom sabê-lo sem ilusão mas com sabão. Enxuto, um tudo-nada perfumado, regresso à cozinha, regresso à cozinha para leite & bolachas & marmelada. O silêncio da casa recebe finalmente o primeiro dardo solar, que vem, diagonal, esmigalhar uma poalha de diamantes na divisão onde acabo de comer (é preciso limpar o pó). O comedor de bolachas não pensa de moto-próprio nem por-si: as coisas, a esta hora temporã, são quem no pensa. Fragmentos, cacos, lances, miudezas de passado & futuro (presente, nunca) entrelaçam-se e interagem na cabeça do recém-renascido. Também isto é bom. No quarto, os apetrechos e os mantimentos para a viagem do dia estão já agasalhados no bornal. É o momento de partir, de novo senhor, de nada para ninguém ou coisa alguma embora, de si.

Homens das bombas de gasolina: penúltimos degraus da escada do consumo multimilionário. Todos eles pobres, fodidos todos eles e mal pagos todos. Os doutores (só moram doutores em Coimbra) abastecem as viaturas sem sair de dentro delas. Triângulo da predação: a base é o homem das bombas, o vértice parece que é Deus – ou o Papa por ele – ou o doutor de Coimbra.

Nunca habitarei, nem como criado de servir ou valete de quarto sequer, a Vila Mariani, ao Calhabé. Moro num quarto, à Solum.


Não está
ainda não
não ainda
perdida a vida
que é linda
até.


Aves de Coimbra
que a sufrágio ides
em um mundo de gatos
de cachorros pedintes
e de ratos
voto por vós
de Coimbra aves.


De José Rodrigues Miguéis, isto:


Não sei se já repararam que as pessoas que caminham no mesmo sentido quase nunca se encontram.

Decisão de penúltima hora: ir almoçar a casa da Mãe. Se, acordando, renasço, vou revisitar quem me nasceu. Nas entrelinhas de Miguéis (faltam-me três páginas para encerrar a leitura), preparo já a expedição ao berço: autocarro nº 5, hora aproximada de regresso. Leitura de Miguéis concluída, segue-se um colega alcoólico de, digamos, primeira-água: F. Scott Fitzgerald (Três Horas entre Dois Aviões). Três (para já) leituras por concluir: Malaparte, Woolf e Pessanha – a seu tempo. Para já, em paragem-bus junto ao Estádio Cidade de Coimbra, nascido em 2004 das cinzas do velhinho Municipal, onde vi jogar o senhor Eusébio contra a Académica (derrota encarnada por 2-0) e contra o meu União (derrota unionista por 0-4) e o senhor Damas (vitória leonina sobre os “sintéticos” por 3-4). Há muito, muito tempo – noutro século de outro milénio. Que se lixe, vou a caminho da minha Mãe.

Dia de sol nublado e de favónio fresco, agradável na roupa. Passa uma morena forte, madura já, boa bacia atada a cinturão de presilhas, decote como um clarão, quarentas à vontade.

Comprei uma senha de três viagens, desta vez não me boto a pé ao caminho para a Pedrulha. Passa um maluco, depois outro. É uma vocação iniludível da minha Cidade, a malucagem inofensiva coleando pelas ruas seus lunares lados ocultos: chamo-lhes “pinqueflóides”. Já morreram os clássicos da minha mocidade: o Maló, o Pedro do casaco encarnado à Martini, o Tatonas, o Vasco, o Taxeira. Estes, de que não sei ’inda o nome, estão e andam vivos.

Ali vai um rapaz de óculos escuros à moda, desses que tapam meio focinho. Barriga-michelin às camadas de unto gelatinoso, chinelos brasileiros, pochette à Cunhal, um ricto de fastio saciado na beiçola húmida e roxa.

Tenho de aprender alguma botânica, carago. Quero chamar árvores, flores e demais vegetação pelo nome – e pouquíssimo mais sei que oliveira, rosa e musgo.

Autocarro nº 5, Estádio-Pedrulha. Antigamente, o 5 era S. José. Da Pedrulha até aqui, era preciso apanhar o 2 primeiro. Ora ainda bem. De qualquer modo, esta e todas as cidades são para conhecer à pata. Daí que este caderno vá subintitulado Podografias de Retorno. É termo que cunhei em Viseu, ao tempo que por lá morei e (muito) andei: podografia não é (digo eu) escrever com os pés nem exactamente de pé, mas escrever o que se anda a (escre)(vi)ver. Nomes de ruas (mas e o das árvores etc.?), nomes para coisas, gente incluída – em pedestre andamento, mesmo parado. É uma maluquice (mais uma) inofensiva. Sim, também pertenço a eles, também eu sou um pinqueflóide. Pois se até o falecido Tatonas era Daniel…
Antecipo na pança o arroz de frango que a minha Velhota me garantiu por telefone. Se o meu irmão Fernando por lá andar, tomaremos café no Lobito juntos, pago eu. Pombal, só quarta-feira (dentista e reunião de formadores). Até lá, muita caminha coimbrã e muita leitura cosmopolita.

Ontem à noite, episódio autoclínico. Regressando do Nosso ao quarto, desespero por causa do abcesso na raiz do canino. Não estive com mais estas nem aquelas: ao espelho da casa-de-banho, alcooletilizei gengiva e folha de canivete. Furei o balão. Esguichou pus (fétido) e sangue e outras aguadilhas. Espremi a batata túmida. Olhos vidrados de algia, mas coragem. Alívio quase imediato. Desinfectei a comua (popular antigo para “boca”) outra vez, deitei-me à espera. Passado um pouco (não muito), lá pude fumar o meu cigarro e ler o meu Chesterton de antecâmara sonífera. Ainda ando inchado de ventas, mas sem qualquer dor.

Obras de vulto na Escola Brotero; idem no (meu) D. Maria; Rua General Humberto Delgado, o Assassinado (parece que o cabrão do Rosa Casaco ainda é vivo, o impune filho duma puta); sol, viste-lo, de momento; Combatentes acima (Restaurante Safari, onde há coisa de trinta anos papei um bife à conta do CAGS, por lhe ter feito o exame liceal de Inglês e aonde vim dar ao dono o irmão preto do meu saudoso cão amarelo, o Canino); Leitaria do Raul; Arcos do Jardim; Alexandre Herculano (Cooperativa Ré Maior, lições de piano com a professora Alice Amélia, 1976) até à Praça da República (Café Tropical, São Pinto e Carlos Athayde); Sá da Bandeira (Pastelaria Marques, óptimos folhados e franguinhos assados antigamente, agora não sei, lembro-me de haver na parede um aviso que proibia estudar entre as tantas e as tantas horas); PSP (antigo celeiro do Mosteiro de Santa Cruz, ensina o Professor Pedro Dias de Coimbra – Arte e História, Paisagem Editora, Porto, 1983), Jardim da Manga e escadas do fontanário para Montarroio (Fonte da Madalena, que foi pertença da antiga Quinta de Santa Cruz, op. cit.); Rua da Sofia (becos para o Mijacão e para a Democrática); Palácio da Justiça (antigo Colégio de S. Tomás; painéis maravilhosos de mestre Jorge Colaço – de 1933, os painéis, tenho a certeza de cor – e casamentos de Lucília com José e de Carlos com Maria da Graça no dia 1 de Maio de 1971); Arnado (sobe nesta paragem o Júlio de Trouxemil que trabalha(va) na ANTRAM e era director do meu Centro Atlético das Neves, onde futebolei a partir de 1982, tempo, Tempo, time, Time de pinqueflóide; Fernão de Magalhães (Rodoviária de dia e putas à noite); (Quantos milhões de vezes fiz estes sítios? – milhões; e quantas mocidades? – uma.); além, Monte Formoso; Choupal, além; Café Danúbio (o estabelecimento tem um anúncio naquele Ponney de 1961 que ontem referi – voltarei a ambos, ao magazine da boa-disposição como ao Danúbio; Coimbra-B, vulgo Estação Velha (acho que foi inaugurada em 1864); Casal Ferrão do meu amigo Quim Jorge; Loreto, Brinca e Relvinha (mas agora o Lusa Nova já não é Lusa Nova, é uma coisa, uma pastelaria, não sei quê Euro Avenida – da próxima vez, vou ao Lancer e pronto); antigo Bairro da Lata, que o PCP transformou em bairro de decentes tijolo & telha & cimento, no imediato pós-25; rotunda da BP (isto dantes era tudo olival) e Complexo das Piscinas Rui Abreu (onde era o meu ciclo, Escola Rainha Santa Isabel; também me lembro do suicídio do nadador Rui Abreu nos Estados Unidos, asfixiado num saco de plástico, o Álvaro de Campos do Se te queres matar, por que não te queres matar? aberto ao lado, porra); Churrasqueira da Pedrulha (em oposição ao sítio do prédio que explodiu/implodiu no incêndio do armazém de botijas de gás, vai para mais de trinta anos); Rua 4 de Julho e Largo de S. Simão; cheguei.

1 comment:

Joaquim jorge Carvalho said...

Estou a ler e a ver-te passar. Mas estou sobretudo a (re)conhecer esta Coimbra por dizer. Frescura, consolação, lucidez, poesia e Língua Portuguesa. Regalo!
Daniel, estes belíssimos textos hão-de dar (sei-o) um volume maravilhoso sobre a nossa cidade vista por dentro do coração.
Abraço e gratidão.
QJ