Saturday, February 28, 2009

Narração por causa de Dália Mira Graça Praia

Souto, Casa, tarde de 28 de Fevereiro de 2009
(reescrita sobre esboço de Viseu, noite de 2 de Agosto de 2008)

Não posso precisar o ano.
Talvez tenha sido todos os anos – estes que se volveram aqueles.
Todos menos este em que finalmente escrevo mais por causa dela que para ela, ela sendo, ou tendo sido, Dália Mira Graça Praia.
Mulher não minha mas da minha idade, Dália Mira Graça Praia não precisou nunca de convocar os pássaros brancos à praia para que se enchesse a praia de pássaros ante ela, branca, Dália Mira Graça Praia.
Estudiosa, não grande de corpo, os pés pequenos quase de mais até, foi mulher de si mesma mas nem sempre – embora nunca, senão à passagem, de outros homens, que não fui nunca, e de outras mulheres, que nunca pude ser.
Ainda a vejo, agora que não é senão criada de sua mesma senhoria, isto é e digo: memória de memória, portanto esquecimento.
Ela frequentava cafés de província a horas de homens: as mais nocturnas horas como os homens mais nocturnos, quando a eternidade de uma motorizada risca a sulfato uma rifa de sucedâneos de chocolate espanhóis, no nosso Portugal.
Muito gostava ela de entristecer, e quase triste deveras ser, em cafés de província nas noites de inverno português portuguesas.
Dália Praia chegava sempre de lado como os bandarilheiros, vinda do sul sempre, a norte timoneiro de seu Opel Manta, modelo castanho 850 ou assim.
Estacionava, tilintava a prata dura do chaveiro múltiplo, coçava uma virilha desengonçada e dava entrada no café com bilhar da aldeia mais desértica do mundo, sobretudo por causa das mulheres à capela e dos homens ao bilhar.
Tomava um porto ou dois, tossia concordâncias com o futebol da televisão, arriscava na máquina de brindes uma moeda de braço quebrado, falhava, voltava ao balcão, falava cada vez menos e ouvia cada vez mais.
O mais era ouvir – como hoje o sei e faço e vo-lo peço.
Fui muito acrescentado, a mim mesmo adido, do que me contou Dália Mira Graça Praia das andálianças suas, dela, Dália.
Um olor a espetadas de enchidos provinha sempre das traseiras, a ponto de o sentir no exacto ponto, agora, que ante vós a recordo e ao que me contava, as traseiras onde a memória é contemporânea das grades e dos matraquilhos – e da fala dela.
Reuniu-me, só para mim, dichotes únicos, úricos e serradúricos de reformado de tasca, onde o adágio arranjava sempre maneira de facturar sentido, onde o anexim vigorava com aparato de apotegma e vigor de cobra-de-água dentro de água, onde a impoluta masculinidade dela era toda Dália – e Mira e Graça e Praia, p’ra minha adição.
Se falo dela por jeito pretérito, logo imperfeito, não é por mania, ou por não outra mania que a de narrador: desapareceu devidamente como devia, morta talvez ou improvavelmente viva numa dessas venezuelas que luxemburgam de todo quem nada passou a ser na aldeia.
Só muito depois soube que era empregada de limpeza numa escola preparatória, não sei qual, como não sei precisar o ano, talvez todos os anos, todas as escolas, as praias todas.

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