Thursday, February 26, 2009

DOUTROS CADERNOS – IV (extratexto de A NOITE EM BREVE)


© Sandra Bernardo
Viver os Livros – XIV
Viseu, 20 de Agosto de 2008



(P)Rosa
Viseu, noite de 4 de Outubro de 2008





Em poesia, não serei mais que prosaico, pois que do mesmo falarei sempre: de um ou dois homens, amados, e de umas tantas mulheres, amadas todas – e todas incompreendidas.
Se a este ritmo (quase poesia) cheguei, foi porque a tanto me levitei, coxo de andarilhas andanças outras, mesmas ou símiles ou iguais que tantas, afinal – e que importa?
Hoje, rumoro neste idioma bárbaro, ledor ’inda de incunábulos e merdas assim, seu quê de Fialho de Almeida, seu tanto de Correia Garção.
É um sábado muito noite, dizem-me que do século XXI – e que importa?
Um homem ou dois, se calhar o mesmo sangue, e o sangue disciplinado de umas tantas mulheres – quanto me basta para prosa.
Rima agora a rosa:
raparigas de minicervejas fumando a um canto (li no caderno de orações da Senhora do Carmo, Viseu, a caligrafia tardio-adolescente de uma menina que invocava à Virgem a ausência da mãe para dinheiro de sair à noite aos bares que rondam a Sé como os lobos outrora a presa fria – e dinheiro para biquínis e solários, está escrito nos pedidos para o terço da Senhora do Carmo).
Nada de especial – nem nada de outro mundo: tudo deste e tudo normal.
Vigência das casas, demora dos sentidos: placas deícticas, sinais de norte e oriente.
Casamentos.
Filas para o afamado restaurante que te explora o prestígio da memória.
Licor de tangerina e salões de baile.
Com a idade, graças a Deus!, menos trepidações do erossangue.
Sossegadamente a morte de Dinis Machado.
Prosa.
Rosa.
Ousa:
uma planície, cobertura rápida de couros (cavalos correndo); muita tinta-da-china (abetos, faias, cedros, ulmeiros: o que subir a botânica onomástica); um lago gelado; frango frito frio e pão de milho na bolsa do pão, comer sozinho ante o lago; esperar um barco; saber que ele não virá; lembrar figuras hollywoodescas: Peck, Garbo, Pickford, Bancroft; sábado, agora, outra vez, nenhuma vez.
(E uma fadiga que recobre de lama a afinal não última água dos olhos, a final primeira água dos olhos, o lago.)

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Virtude do muito trabalho: não ter perdido senão tempo.
Em cafés de província, assistir à bonomia da putrefacção: a da televisão em geral e a dos televidentes em particular, os gajos das motas 50cc que respiram pela hirsuta barriga, suas extraordinárias mulheres comedoras de laranjas cristalizadas, seus energúmenos bebés adejando sangue pelas rosetas das bochechas, seus avós artríticos que condensam na senhora-de-fátima a aparição de epifania nenhuma.

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Daí a prosa.
Qual poesia?
Prosa.
Prosa é nunca ter ido a Lisboa em poesia tendo ido a Lisboa em prosa.
Prosa é ter visto um rio de lado como um perfil de pessoa – ou de cavalo, dá o mesmo e no mesmo.
Eu não ando aqui para enganar alguém.
Eu ando aqui para enganar ninguém.
Conheço alguma história e algum fado, sei que caganitas é preciso cagar para ser rato.
Nasci para a prosa porque nasci em Portugal.
Não é possível nascer a não ser nascendo em Portugal.
Os senhores acreditai-me e que as senhoras não enjoem: é o que mais vos desejo, e saúde e òbrigadinhos, ora o carago!

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Se me não canso de realinhar prosa, é por causa da rosa.
Sábado à noite, província, um café de, por exemplo, Viseu: e então?
E que importa?
Isto das odes marítimas não é para todos: conheço até um gajo tão sozinho, que até deu doutoramentos a conas-de-plástico filhas de gajos ministros e/ou sinistros.
(A Ophelia também queria, mas jamais a teria.)

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Raparigas fumam ao canto do café, tonitruadas pela televisão, bebem minis, nunca sofrerão de marguerite, Yourcenar então nunca, Duras talvez ainda, que é mais fácil, tipo mª teresa horta para remediadas.

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Tenho quatro cigarros, tenho um cinzeiro, tenho tempo ainda.
Morreu ontem o senhor Dinis Machado.
Em 1977, ele mudou sozinho isto tudo.
Ele mudou isto tudo, sem ser o Bush das argoladas ou o Reagan das alzheimeradas ou o Clinton das mamadas ou o Bill Gates das tomadas ou o Napoleão das derrotas ulceradas, mas isto se calhar também já é abusar da cultura geral e do Carlos Cruz e da RTP Memória e do Tony Blair, coitado.
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De uma coisa gosto na prosa – e é o ritmo.
É quase-quase poesia – mas dá na mesma para mostrar à Mãe, em viva.
Uma pessoa pode não ser Pessoa, mas pode ser pessoa, em prosa.

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(Paquidermam-me de alvoroço as grandes naves
que as aves não reduzem, aumentam antes.
Barcos grandes vi entardecer suaves –
e rútilos como júbilos e diamantes
e como tartarugas gigantes.)

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Mudo de café, avícola de minha manquidão.
Quase meia-noite, amanhã é o mesmo dia.
Sofro de não sofrer a própria inconsequência.
Alinho a gramática, entendo as regras.
Isto é tudo agora electricidade, antes era luz.
A sombra cresce una, tetra, octo-genária.
Envelhecer em novo não é fácil nunca, menos ’inda de manhã como ontem.

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Nem é por causa da poesia, nem do desgoverno que assiste à sub-presidência das putas e dos empreiteiros que as tornam gordas e tropicais, não.
É pela prosa, que mais é justa na insuficiência do que a poesia na prepotência.
Num país dentro de nós, temos por exemplo nenhum exemplo: ninguém lê e tudo vê têvê.
Então e o ora-que-carago!?

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Vem comigo devagar, na bolsa da mão, o Wenceslau de Moraes no Japão.
Sepultou duas mulheres que amou.
Foi tristemente feliz longe desta merda, que se calhar também amou.
(Tenho de aumentar os homens amados, parece-me: Wenceslau, o Pessanha que amou Ana de Castro Osório, o elegante Botto, o tísico Cesário, o roto Camões, o invejoso Fialho, o insuperável Eça, o ríspido Junqueiro, o fatal Camilo, o breve Diniz, o sumo Santareno, o gandarês Oliveira, o cromático Brandão, o sombra de pessoa Pessoa, Herberto no Café Gelo, depois no Café Expresso, depois
um poeta está sentado na Holanda, raparigas fumando mal ao canto do café – como homens que não lêem.) !?

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O tempo chega sempre a tempo de um homem se olhar fora de qualquer vidro.
No meu caso, a prosa é vidro quanto baste.
Em os casos dos outros (nas casas dos outros), bastará o que bastar quanto baste.
Fumo e nuvem e lua a meia-haste?
Prossigamos:
da juvenil menina a apetência pelo homem empregado no comércio é primeiro prestígio e ultimada justificação: uns interfaces, uns pubs e o filho está feito; do administrador dado a micoses de unhas e a bêémedâbliùs, também, embora haja sempre que atender às videovigilâncias e à acuidade mediúnica da legítima; o mais é amor.

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O mais é amor e poesia portuguesa.
No meu caso, prosa.
E rosa, mas não tanto, dada e tida em conta a situação internacional.

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E de repente, não em verso, aí está domingo: coisa linda, nova e carbono-14.
Pelo menos foi o que me disse, em prosa naturalmente,
Molero.

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