Sunday, February 01, 2009

DOIS POEMAS QUE VINHAM DENTRO DO MAÇO DE SG GIGANTE

Pombal, noite de 1 de Fevereiro de 2009



I


Saí para comprar cigarros e dei de caras
com a solidão gregária das pessoas, casais
incluídos, no café, ante o altar do televisor.

Soube-me bem o café, um pouco de Blake
(o N., não o W.), um pouco de Federico,
no largo as palmeiras clamavam em vão pelo deserto.

Máquinas de venda automática (cigarros, brindes, aperitivos)
e máquinas de compra automática (as pessoas):
tudo em ordem nos respectivos sítios, é a vida.

Vi uma rapariga já não virgem de boné de lã preto,
botins bicudos, calças justas como decalcomanias,
colete de malha roxo sobre blusa fina branca.

Vi um homem de boné de terileno que mantinha
as luvas calçadas, quadruplicado o olhar pelas lentes
cu-de-garrafa, fato completo de riscas, sapatos baratos.

Vi uma mulher pequenina como uma colher de chá,
camisola escarlate que lembrava uma ferida irreparável,
botinas de pelica como já nem me lembrava existirem.

Nas prateleiras de vidro, seis garrafas, sete, seis, sete,
em perfeita ordem e brilho de pano. Dois vasos
com plantas tristes. Um quadro na parede. Dois.

Vi um homem-sexual lamber um pacote de açúcar
como se pensasse, vi um bigode listrado de branco
como um código-de-barras. Não vi criança alguma.

Fui à casa-de-banho prestar contas da minha mesma solidão,
lavei muito bem as mãos no fim, voltei para este papel,
considerei seriamente a hipótese de tomar outro café

mas não tomei, continuei mas foi a ver.



II

Grácil figurinha recém-adolescente,
adentra o lugar do meu coração,
que eu não sou velho, sou ’inda gente
p’ra repenicar cauda de pavão.

Meneia as anquinhas de casca de louça,
levita as mamitas ao cimo apontadas.
Te digo, menina (que ninguém nos ouça),
que tua é casta das abençoadas.

Ó casta de casta e de castidade,
grácil gazelinha de soro de leite,
se não eu, menina, contigo se deite
quem te leve ao altar e ao macio tálamo.
E se o meu coração de velho pavão
t’inda gritar, descuida-mo. Cala-mo.

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