Wednesday, February 04, 2009

CARTA (MUITO) ABERTA PARA A MINHA IRMÃ EM UM ANIVERSÁRIO MAIS DELA





4 de Fevereiro de 2009



Gosto, como tu, de quando o vento levanta as saias à chuva, alvoroçando os guarda-chuvas de há meio século, quando já eras a menina em que te tornaste para sempre.

Tu reparaste, como ninguém mais que eu conheça, em como as árvores se sentam quando ninguém repara.

Como te interessa sempre onde e que ando a fazer, mais te digo que – por aqui, pensando todos os dias em ti, em coisas que vejo para te contar (faço-o muitas vezes em verso, mas é sempre contigo, de ti e para ti que falo).

Ontem (também como tu, claro), pensei no nosso Pai.
Escrevi-lhe:


Não me toma outra doçura que a de me teres sido.
Ter sido uma luz na tua sombra, alguma noite.
De ti ter sabido a doçura da doçura – e dos
mistérios simples dos azul-azulejos-1700.

Não outra doçura me torna que a de te ter sido.
De ti ter tido o amor aos alfarr’almanaques
(incluindo os marriotts e os mandrakes).
Que tonta doçura, senhora, termos sido
– e só ser, agora, sem senhor.

Julgo que isto assinarás em baixo, comigo.

O amor que temos a esse homem é de uma tristeza amansada pela doçura. Não é, minha Irmã?

Também é: uma carburação de ouro de lareira, um raspar de ramos nocturnos em vidraças de inverno, um eco de sílabas, palavras, frases e apotegmas que fizeram, fazem e farão de nós, os filhos dele, íntimas câmaras de ressonância dotadas de memória e gratidão.

Aprendi a escrever com ele, vê lá tu – com ele que nem escrevia, senão, a lápis, no verso das capas dos livros ilustrados:


“árvores ao vento, pág. 144”
“cavalos em corrida, 81”
“velhos no jardim, 77”
“rosa para a minha filha, 4”


Todos os filhos dele com ele acamparam imaginariamente na choupana do monte, onde o vento levanta as saias à chuva.

Fez-nos ele café na cafeteira azul a todos, mitigou-nos o frio, condenou-nos o coração a uma errância peregrina pela beleza do mundo.

Se hoje nos acontece recordar para a frente – é por causa dele, lá onde ele nos espera, de antigo guarda-chuva na mão, o sorriso que lhe nascia triste nos olhos bons.

Fizeste-te entretanto Mãe, pelo que és culpada de rosas.
E de tal te resulta o que a todos quantos criam e procriam resulta – a não suave esquizofrenia de ao tempo mesmo sermos filhos e pais e filhas e mães.

É um aniversário mais e teu: aos 65, és uma menina dourada por fora pela instância outonal dos anos, dourada por dentro do duro ouro de tanto amor.

Porque tens – e dela sofres – essa incurável mania de amar mais do que respiras.

Ajuntadora de tudo quanto é mínimo por máxima condenação, tropeças de choupos de aguarela, de madressilvas pontilhadas a pêlo de marta, de pentes, de retratos esfumados, de bilhetes de lotaria que só sai grande dentro, de números de nenhum resto-zero, de infindos sentidos disto que sentido nenhum faz que lho não tenhamos nós que fazer – a vida.

Nesta vida, pois, minha Irmã, conta mais anos e um só amor – o nosso de todos por ti, desta quarta-feira em diante volvendo, de guarda-sol na mão, levantando a chuva as calças ao vento que dá em certa choupana,

azul.



1 comment:

Sophis said...

nunca tinha percebido como a mariana é tão parecida com ela..