Monday, February 02, 2009

QUATRO TEXTOS DE SETEMBRO DE 2008

TÁBUA

I. Latada
Molelos, tarde de 2 de Setembro de 2008

II. Peça-Carta Sextafeirante
– um ministério palavroso
Viseu, manhã e noite de 5 e madrugada de 6 de Setembro de 2008

III. Palpação
Viseu, madrugada de 13 de Setembro de 2008

IV. Que o Tempo Não Está
Viseu, entardenoitecer de 27 de Setembro de 2008






I. Latada

Molelos, tarde de 2 de Setembro de 2008


Foi debaixo de uma latada fresca e viçosa (tão viçosa e fresca, que a luz solar permeava as nervuras das parras de uma translucidez de orelhas de coelho ou de criança; tão fresca e viçosa, que a sombra possuía a consistência do musgo humedecido pelo rasto e a baba das lesmas) – que te senti, a ti sim, que já comigo não estavas porque quiseste sair da minha vida: e saíste.
Aos meus leitores, digo que foi em vida que me saíste da vida, a ela retornando pela morte, esse ardil mais inicial que terminal a que a nostalgia recorre para impor a sua autoridade desumana.
Era uma latada de traseira de casa, sob a qual os fantasmas rurais merendavam ainda a bela posta de bacalhau assado pontuada de azeitonas duras como certos olhares negros.
O azeite e o vinho recordavam sozinhos os desaparecidos, tu entre eles, para meu desassossego e minha euforia. Senti-te tão materialmente quanto uma dor – ou uma bofetada de vento. Gansos ovelhavam pelo chão de terra. Um cão dormia sem futuro a um canto, ali onde os da casa, hoje morta, guardavam o ferrugento limão e a couve maternal.
Então, espremi o meu coração contra ti: ácido soro gotejou desse barro escuro a que o amor já não molda, antes refracta e estilhaça.
Não voltarei àquela latada.
A ti, sim.



II. Peça-Carta Sextafeirante
– um ministério palavroso

Viseu, manhã e noite de 5 e madrugada de 6 de Setembro de 2008


A jornada amanheceu fresca.
Revoam pelo chão, como moribundas aves, as primeiras folhas outonais.
Saí sem casaco à rua, sabe-me bem o frio.
A luz aluminia o dia, os ossos rangem como ferragens.
De um rádio doméstico, serpenteia um pasodoble que confirma a insensatez de amar.
Todas estas palavras nos arredores do coração.
Todas elas translúcidas como medusas e obscuras como ligações.
O meu corpo há vinte e um anos, noutra cidade, desconcertando-se já ante a arrumação mundial das coisas.
Esta noite, sonhei uma peça de teatro, cujo final perdi acordando: nunca a escreverei nem reverei.
Uma leve angústia por causa disso.
Uma ligeira amargura por causa disso.
As veias dos olhos pulsando a furta-cores.
As árvores como diagramas cervicais.

(MAS:
Minha vida conta nada,
contagem é de meu passar.
Imagem de imaginar,
minha vida conta nada.)

(FAZ-SE FEZ-SE DE REPENTE NOITE:)

Noite frígida, não amorosa noite, assim de repente há milénios.
A coquettevamp de collants cor-de-rosa exerce já seu ministério de defuntos interiores pelo bar tocado a sax e a bateria electrónica, insuportável.
É sexta-feira, é hora da putaria e da bebida fria.

É outra vez 1981, é outra vez sexta-feira.
Elanguescem as veias idiomáticas, o pátrio sangue do rapazinho de bairro que, esquecido de leitibolachas, sai a conquistar o mundo conquistado, enquistado, fatigado, já nem fundo mundo.

(VOZES, AGORA VOZES:)

– Uma, duas.
– Estiquei-me todo.
– Hoje esteve frio todo o dia.
– Todo o dia é hoje.
– Todo o dia é hoje, Maria.
– Não podes querer uma moeda que não é tua.
– Freedom, freedom!
– Tu és um anjinho do caraças, não gosto nada dessas coisas.
– Dóing, dóing!
– Começou ontem!
– Eh, é!
– Esta merda.
– Passava-lhe um pano húmido.
– Vamos a setenta e tal.
– Se fosse vermelho.
– Daqui a quinze dias.
– 80.
– 81.
– Um euro, tu tens cinco euros, mentiroso!
– Metes lá cinquenta cêntimos, o euromilhões.
– Afinal cinco anos, 50 e tal contos.
– O jackpot, compras 1 casa com esse dinheiro.
– Na RTP.
– Na Rita, naquela mesa.

(UM RAPAZ MORENO ENTRETANTO ESTABELECE SEU MICROBIGODE-À-CLARK-GABLE-À-FASCISTA-LUSOBRASILEIRO-ANOS-50-DO-SÉCULO-PASSADO:)

– Cara!
– Ninguém me mexe nos joelhos que eu não deixo!
– Cara!
– Rijeza.
– Duro tom, tom, Tom Jobim.
– Liberta os escravos da própria liberdade, vai!
– Sai.
– Um fio de ouro ao pescoço faz bem à saúde e à sorte.
– Quem dera aqui vir um bocado.
– Ôda-se!

(Um dia o dia terá sido 5 de Setembro de 2008, que ridicularia. Homens e mulheres adentraram outonalmente casas-dormitórios, exaustos, fatigadas. Casa com casa, gente que dorme fora, motoristas-camionistas belgicando suécias irredimíveis. Ôda-se. O tempo dos trabalhadores; o povo antigo dos sonhos; o ser interior que resiste quando te barbeias; o silêncio todo sideral como uma joalharia muda; qualquer dia; ó Gonçalo!; estes arredores do palavroso coração; uma boa palavra recebida de uma pessoa boa numa má noite, numa hora má; freedom, freedom!; essa certeza antecipada da morte penteando o macaco da tristeza; o pai multiplicando as sombras como um dador de luz; o pai a sorrir-nos que sim e que esperemos um pouco que ele já não vem; as andorinhas alvinegras ágeis como gatas frescas; ôda-se!)

(AGORA ENTRA A FALA DO HOMEM QUE VENDE SEGUROS E FOGOS-DE-ARMISTÍCIO:)

– Sedu-lo o mar revolto branqueador de crochêspumas? Interessa-lhe o doisimeio de percentagem? Whisky de 30 anos é bom prà imagem? Gosta de ver decote a vermelho de fato-banhista? Gosta de, porizemplo, 1981? É, o senhor, senhor de suas opções? Digamos: de seus genes, seus tomates? Está atento o senhor às mudanças frias prometidas-e-cumpridas pelo zamericanos ecologistas tipo algóre tecetrital? Conhece o senhor o redivivo sangue a partir do chá de folha de laranjeira? Conhece o-senhor-a-senhora a vida inteira?)

(EM CASO DE NÃO, RESPONDER:)

Refrescarei a jornada amanhã, senhora Mãe.
Terei uma atenção personalizada para com as folhas outonais.
E mais:
serei outra vez o teu mamário colo, 5 de Setembro, fora de merdas e de ôda-ses:
e deixarei sempre crescer bigode de avatar de bares, algumas sextas-feiras,
quando outona
e tudo é tão triste quando
uma louça esquecida
entre casas mudadas.

(AQUI ENTRA O ARRUMADOR DO TEATRO, SÁBADO JÁ:)



III. Palpação

Viseu, madrugada de 13 de Setembro de 2008


Palpa devagar os teus retornos.
Palpa o teu coração como se médico foras.
Médico e genealogista, que isto de palpar sempre tem, também, que se lhe diga.
Toca a tua cozinha maternal: os cheiros, as queimadas mães, perdão,
mãos,
dela:
o arroz de frango acovardado a caldo-knorr,
a sobrevivênciazita com massa,
o maior glutão de glúten do arroz,
da papa-para-crianças do quase extinto
salazarismo.
Este é naturalmente um poema português.

Este é naturalmente um poema de um português.

******

Lembro: a minha bebé
dormia de lado como uma gata
das que tenho agora sem bebé.

Era uma frase de leite,
a minha bebé,
mas com zero pêlos.

A minha mão esquerda
era poderosa, mas só lia,
não escrevia.

Eu escrevo com a mão direita.

A minha bebé estava à esquerda.



IV. Que o Tempo Não Está

Viseu, entardenoitecer de 27 de Setembro de 2008


Soube pelo boletim meteorológico que o tempo não está
bom:
depressões, anticiclones.
Anticiclones depressivos.
Depressões anti.

Esta vida é a vida que fiz na vida.
Escrevo boletins meteorológicos.
Chove-não-chove.
Luz do sol nas praças.

Homens jovens no aeroporto
de Figo Maduro.

Nasci tarde até no futuro.

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