Wednesday, February 18, 2009

HABITAÇÃO E POVOAMENTO DE POMBAL (4)

Roland Barthes



HABITAÇÃO E POVOAMENTO DE POMBAL
um catálogo de miudezas e de notações meteorológicas, humanas, animais, vegetais, minerais e cosmo-agónicas





e diz, servindo, o que acontece.

R. M. Rilke

Muzot, fins de Fevereiro de 1924



4

Tarde de 7 de Fevereiro de 2009

Sábado. Movimento perpétuo: perenidade-efemeridade-perenidade-efemeridade.
Faz sol, bênção que se calhar merecemos. A luz parece uma grande rosa. O ar passou de frio a fresco, é uma gula respirá-lo em andamento, perto do rio, sobre a ponte, depois de ponte e rio. Escuto a luz, seu roçagar vegetal na pedra, sua juvenil antiguidade, dela a esperança insensata. Altaneiro, o castelo fulge forte. Tem aos pés a cidade, ao ombro esquerdo o cemitério. Há muito tempo que não subo a tocá-lo. Tenho uma fotografia lá com a Leonor, era ela muito pequena, anjo vivo e terreno: beleza e pureza. Adiante.
O sábado sobe no ar: um fumo multitudinário, um presente colectivo, árvore muito branca no inverno chão azul do céu. Limpidez e formosura.
Em Pombal, há um Homero, um Ulisses e um Telémaco. Em duas vezes dez anos, todavia, não conheci qualquer Penélope: perenidade-efemeridade-etc.

Tenho toda a cidade ao dispor. Incluo na disposição as lojas encerradas: quietos filmes da tarde cuja visão me move e comove. Pouco me é bastante: atenção e rumor, invenção e sentido. Coleccionarei e catalogarei hoje muitos artigos onomásticos. Sentirei decerto motores verbais e cópulas adverbiais no rol de coisas mundiais, ais, ais. Mas trago uma tristeza comigo. Conto-a: um cão morto na berma da estrada. Eu vinha a pé, como ele sempre veio e foi. Parecia-me dormir, mas a velha metáfora não lhe serve, a ele morto. Não é possível dormir bem havendo-nos abalroado um carro. Não era um juvenil, estava maduro, sabia viver, conhecia o mundo. Uma distracção ou uma temeridade dele – e foi-se a luz dele, ficou à berma do meu caminho o seu corpo já devorado por dentro pelos corvos que esquecem. Talvez me livre dele escrevendo-o e abandonando-o escrito: tenho-o tentado com outros mortos.
Talvez passe pela estação a ver o Grande Ninguém da ferrovia. Há muito não viajo de comboio, sinto falta dessoutro cinema ambulatório, fotogramas do tamanho da janela sucedendo-se: a vaca no prado, a casa isolada, os arrozais, o Desolado Além da vida sublinhando o horizonte com a tinta da sombra, a inexplicável ânsia igual à partida e à chegada. Tenho de ir a Coimbra um destes sábados, abandonar Pombal por um dia, reverificar na minha cidade-natal a autoridade do exílio. Fi-lo várias vezes quando andava a escrever Terminação do Anjo. Partia da estação de Mangualde, transbordava em Coimbra-B, trotava até A com o coração de narceja de volta ao ninho. Fazia e refazia as ruas pontuadas de putas portuguesas e de evangelistas brasileiros, tomava o cálice no Café Angola, columbinava pela Praça Velha, passava a Igreja de S. Bartolomeu, subia as Escadas do Gato, florescia na Portagem, melancolizava na Avenida Emídio Navarro, suportava a angústia inexplicável e mágica do Parque, andava e andava e desandava. À noite, o comboio devolvia-me ao norte breve da Beira Alta. Isto passou.
De regresso a Pombal, tenho confirmado a estatuária, o comércio, as laranjeiras, o Hospital, o Restaurante Tirol, a Rua de Ansião, a Rua de Albergaria dos Doze (antigamente, do Quintalão), a Cervejaria Cervejália, a Pizzaria Jardim d’Itália, o Celeiro do Marquês, a Casa de Pasto da Ti São, os bastidores do Carlos Augusto “Azeite”, o universo, enfim. Tudo isto faço antes de morrer porque depois não há nada a nem para fazer.

Passam este mês de Fevereiro/2009 22 e 25 anos sobre as mortes fisiológicas de José Afonso e de Julio Cortázar, respectivamente. O que me atrai na aranha do quiosque, porém, é a edição do Le Monde de Vendredi 6 Février 2009. O suplemento livresco do jornal anuncia a publicação de dois inéditos de um certo Roland a quem devo muitas canções, por assim dizer. Digo: Roland Barthes, que intensa companhia me fez em idos arroubos universitários da minha penúltima mocidade. As duas moedas de euro que dei pelo periódico já rendem: leio a peça de Jean Birnbaum a propósito do quiçá mais afamado semiólogo de há quatro décadas. Barthes escrevia muito bem. Tenho muitos livros dele, entre a semiologia pura e dura e a incursão pessoal de Incidentes. Birnbaum remete para uma preciosa distinção operatória: a oposição “bouffée”/”brique” barthesiana. Transcrevo, que é mais cómodo (e sempre dá uma certa distinção, copiar no Café Esquina em francês):

« Roland Barthes (1915-1980) s’était fixé une tâche impossible: non seulement prendre soin des mots, mais encore ne jamais laisser le langage se figer, toujours de maintenir dans cet état de révolution permanente qu’on appelle littérature. A ses yeux, il n’y avait pas de combat plus urgent.
Avec délicatesse et conviction, il nommait des forces en présence. A une extremité, pour désigner la parole ouverte, celle qui déferle dans votre tête, palpite sans ordre ni contrainte, Barthes mobilisait la métaphore du souffle et évoquait une
« bouffée » de langage. De celle-ci relève notamment le discours amoureux, auquel le sémiologue consacra son livre plus célèbre.
A l’autre extrême, pour qualifier la parole fermée, prise dans la bonne conscience et les clichés, il utilisait un terme issu de la cybernétique : la
« brique ». Parmi les plus fameux fabricants de « briques », Barthes citait le Bourgeois bien-pensant, et aussi l’Idéologue militant.
Le destin de la langue, et donc de l’humanité, semblait se jouer ici, dans cette guerre entre le libre déploiement de la
« bouffée » et la pesante oppression de la « brique ». A bien y regarder, pourtant, la ligne de front n’était pas si claire. En témoignant les deux textes inédits qui paraissent aujourd’hui : les Carnets du Voyage en Chine, d’un côté, et le Journal de Deuil, de l’autre. »

Há coisa de um quarto de século, era este o mundo que eu habitava. As traduções portuguesas de Barthes (muito boas, como magnífico é o prefácio de José Augusto Seabra a Mitologias) fluíram nas minhas tardes tão a estas alheias. O “son livre plus célebre” (discutível galardão, aliás) a que Birnbaum se refere? É Fragmentos de um Discurso Amoroso, desconstrução naturalmente semiológico-estrutural do Werther, de Goethe. Tenho esse mundo (e a mocidade penúltima dele) na estante.

3 comments:

Manuel da Mata said...

Haverá ai, em Pombal, um cão chamado Argos?

LM,paris said...

bonjour daniel,
olha amigo adorei o teu post, sobretudo Barthes e o discurso amoroso, e os seus fragmentos, livro indispensable...tantos, ai mae!
POis .
Ainda por cima o Jean é uma pessoa adoràvel, sensivel, um rapaz novo que encontrei na radio...France-culture, quando là ele tinha um programa, ficamos amigos.Escreveu um romance que parece ser muito bom, ainda nao li...adorei a tua caricatura!
Bravo, està um espanro!!!
Ando gripada, e surda...ai, que chato!
Bom, isto jà vai longo, je papillone depuis trois semaines et attends d'être revenue au monde!
adorei o teu poeam là em cima, petit_grand!
Depois diz-me se gostas da musica do cd.
O Argos...?
Quem me dera ter um cao velho que me reconheça com barba...
bjos, lidia
LM

Giuliano Quase said...

bueno!

saludo