Saturday, March 20, 2010

Ontem foi Dia do Pai, recebi uma mensagem que não esperava. Republico um texto sobre o meu, agradecendo.



O Senhor não me Faltará





Caramulo, manhã de 7 de Setembro de 2007
1



Relicário da apaziguada emoção
esta luz na frescura matinal
olha-me nos olhos tal o retrato
seu encostado aos livros de pintura.



É muito bonito olhar um morto
que nos olha nos olhos à luz
da manhã viva.



Deve ser porque o amor continua
em casa num retrato
e à luz da manhã
na rua.



2



Sigo vendo a lápis as rosas.
Quem em menino vê o Pai desenhar
não mais outra natureza há-de
esboçar.



3



Esta história de amor é das que não acabam bem
porque
esta história de amor é das que não acabam.



4



Pai
repare que continuo.



5



Pai
repare que continuo
a tratá-lo por
senhor.



6



Eu sei
sou tão sensível à luz
por ser
negativo.



7



Depois de nós
as árvores fazem
como antes.



8



Uma vez na minha vida
entre Elvas e Coimbra
parei numa praça solar de Évora.



Vi o senhor em todos os homens.
Vi o senhor de novo coxeando
como as pombas



uma vez na minha vida.



9



Homens na noite tenho visto
aumentando a noite derredor
como súbitos fósforos acesos.



Vejo o senhor na manhã.



10



Beijo o senhor na manhã.



11



Já se me musgam as fontes da cabeça.
Cabelo nasce-me do imo dos ouvidos.
Suspiro já solfejos assobiados.
Só não sei desenhar rosas como o senhor.



De resto
estou pronto.

12



Acendo o carvão e esqueço-me das sardinhas
como o senhor
fico a olhar o lume.


13


Tive de
de novo
nascer longe
quando o senhor
se foi embora
para longe.


14


Vivo o andamento do meu amor
como vive o remador
em barco e água.


15


Lego aos meus leitores
o outono vitalício do legado
do senhor.

Faço assim:

na orla de um lago entre árvores
toco a pele da água com a água
dos meus olhos.


Dos meus olhos
então
de novo
o olhar do senhor.


Ele
o senhor
é quem olha
os leitores.


Não já eu.


16


O meu Pai é o senhor.


17


O senhor é o meu Pai.
Nada me faltará.


18


O senhor pintou
em azulejo a tinta de baixo-fogo


o D. Fuas Roupinho e o veado suspenso
o S. Jorge e o dragão assassinado
a Sãozinha da Abrigada e as rosas virginais
o Padre Américo e as crianças sacristas
o S. José e o Filho do Outro
o Simón Bolívar e o labirinto emigrante
a Santa Teresa de cabeça enegrecida
o S. Pedro e as chaves que não abrem
a sua irmã Maria e a tuberculose das varinas
a Alexandrina de Balasar e os lírios paraplégicos
o Lenine olhando o senhor nos olhos
a Lígia pequenina na fonte de Antuzede
e a sua mulher olhando-nos nos olhos
como se a minha Mãe fosse o Lenine
ou
a Sãozinha da Abrigada com rosas virginais.


19


À tal orla do tal lago entre árvores tais
usa a água chegar em apaziguadas ondas.


É o trabalho do sal nos olhos.


Agora os meus.


20


Por não saber lapijar rosas
junto outonos numa caixa feita de
língua portuguesa.


21


A manhã não é como o senhor
porque termina.
Tenho de ir para casa
fazer o almoço
tenho sardinhas e lume
para acender.


1 comment:

Joaquim Jorge Carvalho said...

Belíssimo poema, Daniel! Gosto da imagem de um homem - ou vários - (pintor, poeta; pai, filho) distraído(s) das sardinhas e atento(s) ao lume.
Já o meu pai, esse, não perdia de vista as sardinhas; eu dele tenho esse cuidado burguês, mas também amo o fogo.
Abraço!
JJC