Friday, March 05, 2010

Muito Gosto Eu Disto, Raios me Pátria

Pombal, manhã de 5 de Março de 2010



Muito gosto eu disto, raios me partam. Digo: chegar manhã cedo à cidadezinha, dar-me assentamento em sítio público e olhar tudo para nada:

o rosto deste homem já descriado é uma beleza: duplo queixo raspado de fresco, uma chapada lustral de banha-loção, o duro cabelo segado rente à gêéneérre, camisola marca cigano de uma bondade enervada a verde, sapatos castanhos de um reles humílimo e castanho, boné branco de pala com publicidade a uma marca de tintas como antigamente o malogrado Joaquim Agostinho príncipe do ciclismo duas vezes terceiro na Volta à França;

o corpo desta mulher é outra beleza: cinta em órbita como uma circunvalação, unhas manuais forradas a esterco-macadame que o verniz em lasca revela e denuncia, pèzinhos muito feios entalados por trombose em sandálias de ir ao pasto, as gerais banhas almofadando a particular chita, chinó enredado em totó, verruga brotoejando carne-e-pêlo no mesmo sítio da cara que o Robert de Niro, dentes de cima e de baixo comprados no laboratório com credencial do dentista Júlio Trouxemil;

caras de bacalhau e a giz na ardósia coca-cola, sobre costeletas de porco fritas ou de vaca grelhadas, rancho, fêveras de todas as maneiras e grelos de todos os feitios, grão com bacalhau (olha a miga de cebola ensalsada), sopa bruta de feijão pouco delicado, torresmos para acordar na boca o chiclete crocante do porcum e mousse tipo caseira tipo feitora.

Eu tenho, raios me partam, visto coisas maravilhosas ao longo das nossas vidas (incluídas as que não lêem e muito menos escrevem):

a força irreprimível da copa da nespereira velha rompendo alta o muro do pátio em ruínas de um casarão idem;
a estrela-de-David-Cristo-de-Natal sangrada a cal por mãozitas palestinas;
tantas salas-de-espera-sentado-que-já-não-venho, das primeiras do sarampo às penúltimas de uma receita de antidepressivos para não beber tanto;
os Beatles ainda hoje por todo o lado, até nas Caldas da Rainha, estância termal a que no Verão de 1682 rumou Frei António das Chagas para se curar da morte e não curou, como aliás até à data dois dos Beatles também não;
as moedas agora d’Euro e as d’O Antigo Portugal, que as cheguei a ter de X centavos pretas, quando o Senhor Carlos & a Senhora Eduarda que são jeovás tinham merceatascarvoaria na Lameira do Saramago antes ainda de o Joaquim Agostinho ter ido para a França fazer o Tour;
os cronogramas apocalípticos de Blake, de Bosch, de Goya, de Rafael Bordalo Pinheiro e de José Vilhena;
as massas de ar quente no rosto quando a Infância, estival de rabo a cabo, não sonhava estes invernos de agora do Euro;
tantas caixas de fruta em madeira tenra para albergue do ananás dos Açores e das laranjas de Besteiros e das maçãs de Alcobaça e das maçãs do rosto como as daquele senhor barbeado de há pouco na minha, raios me partam, imaginação;
o NSU daquele vizinho que se estampou, sem ser por litografia nem por cortinados, contra uma árvore, digo eu que em 1972 mas pode que antes;
a venda de lotarias em Coimbra chamada Campião com i como antigamente, antigamente;
o leão sexual das senhoras descambar quase sempre em marido-tareco;
a cúpida sápida ríspida áspide rápida associada por neurónio-tónio ao marulho salivar da Língua;
renaults cinco e citroënaxíses trotando bolsas-de-família-marsupial à Figueira aos domingos;
os primeiros indícios da Língua Inglesa na minha cabeça, que não por súbdita nem súbita sujeição da Minha Mátria mas por engraçar com o lego daqueles double-yous;
este rapaz ainda agora, representante de cafés e açúcares, mortinho pelos objectivos obrigatórios da semana, do mês, do semestre, da temporada operática mais Verdi que Wagner;
a sala de leitura na casa de Luqia Gaspar, a nervosa de boas mamas cujo pai bebia chá e o não escondia de ninguém;
o xadrez calceteiro das calçadas portuguesas, cujas cócoras me levaram a cronicar que a Democracia é o sistema que transforma as nações em queijo para que as pessoas possam votar nos ratos;
o Almeida Santos;
o Otelo;
as voltas do Doutor Francisco de Sá de Miranda, que, como o Doutor António Osório, também andou por Itália, mas, para de ambos azar, voltou, voltaram, ao rincão pátrio,
lugarejo de nespereiras invencíveis,
e
em ruínas,
raios me partam,
ó Pátria.

5 comments:

Sophis said...

e tanto que eu gosto de te ler assim :)

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Merci, amiga.

Manuel da Mata said...

Acabei de picar o ponto. Bom fim-de-semana. Abraço.

Joaquim Jorge Carvalho said...

Ora, Daniel, é exactamente ISTO, em verso ou em prosa, que te permite casar o génio indiscutível com a pragmática, mas não pouco nobre, questão do prazer leitor. Não falo de espanto, que esse é - sempre - garantido; mas desse delicado fio de partilha que há nos textos menos Finnegans' Wake e mais Cronicão ou Licor, Sabão e Sapatos.
Desculpa a franqueza. E toma lá (novamente) a minha admiração!
ABRAÇO.
JJC

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Ah King, leitor dum raio!