Saturday, September 05, 2009

MANHÃ, TARDE E SENHORAS


I. COIMBRA, UM FIM DE MANHÃ

Coimbra, fim da manhã de 4 de Setembro de 2009

Uma zona arborizada de prédios bons, deitadores de vistas para bandas do rio, que passo ligeiro do coração. Reconheço alguns detalhes de há três décadas – e mais que tanto, até. Por aqui adquiri gramáticas e peripatetismo soliloquaz. Saí daqui há vinte e três anos. Tinha vinte e dois, quando saí. Ainda não voltei. Talvez só volte já cadáver, como dizem os bombeiros que chegaram tarde ao local do desastre. Não sei. Nunca se sabe. Esta manhã é bonita: é uma manhã conimbricense, a luz é familiar, as árvores e os cães são tuteáveis, cor-e-salteado. As mulheres fumam. Há quem leia jornais. Vi uma pessoa com um livro. Há vinte e três anos que não via disto. Num café antigo perto do novo Estádio, Bolton e Liverpool vão-se empatando a zero (28m51s de jogo). Fui com toda a sinceridade de todas as terras onde já vivi. A verdade é que sou daqui, porém. Não há que enganar(-me). Uma pessoa ama de cor-e-salteado quando e quanto ama. Por mais anos que a queimem, uma pessoa ama de cor-e-salteado. Conheço isto tudo, sobretudo o que descubro. A manhã acaba em poder do sol. A cara da manhã toda ao mesmo tempo: a luz é uníssona, ubíqua, multívoca, toda simultânea. As árvores traem sem maldade a aldeia-em-nós. Senhorinhas utilitárias metem combustível nos carrinhos senhorinhos. O dono de O Nosso Café está estabelecido desde 1964. Eu nasci em 1964, estou portanto estabelecido há tanto tempo quanto ele. Somos pois, por assim dizer, colegas. Colegas são aquelas senhoras – eu sei. Bolton, 1 - Liverpool, 1 – aos 40 minutos. Faço e desfaço horas com o meu distinto perfil de cavalheiro. Olha: um Opel Manta. Aos anos que não via um Opel Manta. Tivemos um vizinho que tinha um Opel Manta. O senhor do Nosso é Senhor Manuel. Pessoas de cabelo que deveio branco. Mulheres bonitas e envernizadas. Setembro também bonito. Lojas de brinquedos, de livros, de trapos. Pus dois euros no euromilhões. Nunca se sabe. Passa longe um homem que conheço. Chama-se David. Recordo nomes. Os nomes ficam, as pessoas passam. Estou aqui e recordo um casamento em Lorvão. Fui com a minha Irmã Xelinha e com a minha também Irmã Gracita. Levaram-me, quero dizer, eu era pequeno como nunca mais deixei de ser, apesar dos centímetros entretanto. Lembro-me das taças de pudim cor-de-rosa. Lembro-me de uma bateria. Lembro-me de um rapaz maior do que eu que vestia fato completo, o que me maravilhou porque o fazia grande como os grandes. Um homem diz

– Incompetências que a gente vê –

e sai porta fora. Converso com o senhor Manuel acerca dos Taborda Nogueira e dos Moura, meus professores antigos e bons do liceal tempo. Estou em Coimbra, o Sol renasce a minha cidade. Um casal: ela de ombros morenos presidindo a um vestido roxo muito (in)justo ao corpo. Ele de camisa branca listrada a castanho-pardal. Lá vão, coitaditos. O futuro ainda mora aqui um tempo mais. Está por aqui perto sepultado Vitorino Nemésio. Há cartazes grandes de propaganda autárquica e da outra, de Lisboa. Também gosto de Lisboa mas menos, por causa do patriotismo regional. Nunca fui a Paris, nem já quero saber: é verde, não presta. No Centro Paroquial de S. José, aqui tão perto, vimos e ouvimos um guitarrista chamado Roberto Olabarrieta, acho que é assim que se escreve. Pass(ad)os surdos no coração, como gemidos sentidos em casa pequena. Operários em folga de almoço, pintores da construção-dita-civil. A luz terrena e alta: atiradora de pontes, deflagradora de árvores. Bolton, 2 - Liverpool, 2: bom jogo andante. Exerço a minha boca, língua adentro. Aquela senhora chama-se Isabel – eu sei. Berlim, Milão, Capri, Odessa – nada disto. Tudo isto: Calhabé, Ginjal, Casa Branca, Olivais, Rocha Nova. Tempo de me acertar sem terrores nem euforias. Deus te pague, que eu estou um bocado à rasca. De momento. Digo: de momento. Onde era o cinema do Girassolum, agora é IURD: Centro de Convenções, chamam-lhe os gajos, papões evangelistas com sotaque de casa-de-alterne. Fui ver. Tive pena. No dia 17 de Maio de 1985, fui lá ver um filme com o Robert De Niro e a Meryl Streep. Também lá vi um filme com um cão que dava peidos, o que me ri deliciadamente escandalizado com o raça do cão e os peidos do cão, chamava-se Hotel New Hampshire, o filme, o cão não me lembro como se chamava, era baseado num livro do John Irving, agora o desgraçado do Cristo é lá ladrado em brasilês. NATO, Afeganistão, Magistrados do Ministério Freeport Público, equipa de futebol do Freamunde toda de quarentena por causa da porca da alegada gripe-dos-A-porcos, essa lend(e)a do piolho farmacêutico à escala global. Tempo. Pássaros calafetam frinchas do ar. O ar é um grande barco azul de costado amarelo. A solidão permite a fuga ao imo sentimento de vergonha. Que o menino era para ser isto, era para ser aquilo. Jogatana, viver. Ali fechou uma fábrica. Céus de Coimbra, homens de pêra.

– Amanhã mesmo –

diz uma mulher de chapéu. Aos anos (vinte e três) que eu não via uma mulher de chapéu. Amanhã, o mesmo – digo eu, que há quanto-tanto não via um chapéu com uma mulher por baixo, a sul da sombra. Os pintores pagam as bicas e as meias-macieiras e vão-se embora. Uma carrinha representante de batatas-fritas-lays. O meu tempo era pala-pala. O século XXI. Isto não ser, por exemplo, 1959. Ou 1964. Descida de receitas nos casinos. Dei dois euros ao euromilhões. Uma volta mental pela chuva, pelo frio que fazia. O corpo sensível ao lume como uma febra pensativa ao carvão. Toques laterais no peito, nos braços, na língua e em Coimbra.

II. POMBAL, A MEIO DA TARDE

Pombal, tarde de 4 de Setembro de 2009

Lentidão dos olhos acalmados de sol, a meio da tarde. Vê-se daqui a linha-do-comboio, parte da Charneca, um pano amplo de céu. Tudo em ordem. Fadiga do foro físico. Casas paradas, carros também. Um rapaz conhecido, como é que se chama, acho que é Rui, lá vai ele de pasta na mão como o boneco da Regisconta, camisa atormentada de calor, o cabelo porém correcto, curto, limpo. Já por aqui andei um milhão ou dois de vezes. Não tem importância, não conta, não faz mal nem bem. Estou acordado. Falei com a minha Irmã ao telefone. Disse-me coisas. Os anos vencem. O Sol é uma maravilha alta. As pessoas também são maravilhas, só não altas todas. Algumas são altas dentro: são fundas. Vêm todas nos olhos. Estendem as mãos: são raras. Estou fatigado. Sei línguas. Conheço paragens: carros, casas. Estou a pensar um livro. Ando aqui parado. Fui a Coimbra de manhã. Vim-me embora. Amanhã, diz.

III. DUAS SENHORAS A MEIO DA TARDE

Pombal, tarde de 4 de Setembro de 2009

A Senhora Newhaven não é correspondente da Senhora Luzia, mas entender-se-iam ao chá (a Senhora Luzia diria e iria por café) sem problemas. As mulheres entendem que a vida não é uma coisa que se atire fora agora para ver se é possível ir buscá-la daqui a bocado. As mulheres e as senhoras. Eu tenho um grande respeito por mulheres que são senhoras. Tenho. Como sei escrever, escuso de pensar. Newhaven, em solteira Spencer. Luzia, em solteira Luzia Gaspar Vaz, depois Luzia Gaspar Vaz Correia por mor do entretanto falecido, carpinteiro de Barcelos, não major na Índia como Mr. Newhaven, Cyril. O que estas coisas são – escritas. Minha vida. Este lapso entre quase nada e pouca coisa mais alguma. Mal nenhum. Mal nenhum também em seguir aberto ao saltar-de-coelhos da fascinação literária. Na eira de ao pé de casa, a Arcádia Ulissiponense, a tanta-graça-séria de Gil Vicente, os nucleares Fernão Lopes e António Vieira e Fernão Mendes Pinto, o íntimo Brandão das paletas (o amor dele pela mulher ainda hoje ama/impressiona); noutras eiras, Bruce Lee, DangerMan, Claude Nougaro, Hart Crane, Hristo Mladenov, Peter Falk, Claude Jeter, Lovecraft, Pierre. Lá como cá, a senhora Newhaven. Cá como lá, a Senhora Luzia. Sossego entre madeiras, papéis, tocos de lápis, notícias, cortes de cabelo, bocados de filmes, sonetos e camisas de estampa desenho-pescoço-de-cisne. Tempo de suportar a realidad’agora, vigorando porém meandros de idos&marços outros: gente que se não amou a si mesma, teatros com nome de príncipes arrasados pelo bolor e pelo pato-bravismo, a feiúra da liberdade conquistada a ferros para-afinal-esta-merda, hoje. As pessoas adultas dos anos 20/XX, de roupas densas contra a liberdade do vento, meias até os joelhos por fora das calças, sapatos cambados e poemas difíceis de penetrar como freiras. Destas maravilhas oraculares vivo – ou para elas. O resto, os restos – têm sido aldeias maravilhosas de Portugal, onde o cheiro a merda é uma virtude das mais católicas e um catolicismo dos mais virtuosos; e o cheiro a dicionário, um rastilho de paneleiros da alma. Sobem então as galerias gasosas (diz etéreas), sobem então as galerias etéreas do que vale mesmo muito a pena não perder: a ambidestreza do De Vinci, o gosto-por-elas-novinhas do Chaplin e não só, o metro humaníssimo de Rui de Moura Belo São João da Ribeira Rio Maior Ribatejo Portugal, os azulejos refrescando a paragem breve do velho filho a caminho ferroviário do enterro do Pai (ou da Mãe, não tarda), a música-miosótis, a trança-tango, a clara correcção do perfil do cavalheiro quando em Coimbra. Tempo de profunda (alta, portanto) aceitação. Linha-férrea, em frente; casas paradas, idem carros, idem vida minha. Sol com fartura, consolo ígneo de cegonhas, brutalidade quase no Setembro-tão-novo-inda. Volta por volta, ligamentos cruzados, resistência e proteína e, um destes dias antes que se faça tarde, noite.

2 comments:

fj said...

gosto mesmo muito destas coisas terra-a-terra que falam das terras q'amamos.

António said...

O tempo passa despercebido. Quando passamos por onde já vivemos fazem-se contas e aparecem memórias.

Vi alguns jogos e bebi alguns 50$00de cerveja no nosso café,...era meio-litro. O tempo passa.
Gostei destas lembraduras!