Thursday, September 17, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 4

Coimbra Antiga, Choupal





4

Pombal, entardenoitecer de 16 de Setembro de 2009


O vento do entardenoitecer torna a respiração uma questão, ou função, de maresia. O vento do entardenoitecer é um dos meus países provisórios favoritos. A vida espraia-se e solidariza-se: o ar móvel acomete os corpos de uma euforia mansa, fusão a que sou muito dado desde que pratico o meu sempre.

O vento do entardenoitecer traz-me sempre muito a pena de não vivermos todos tudo para sempre. Não sei se estais a perceber-me: o vento do entardenoitecer vem do lado da pena de viver.

Eu sei: o melhor é ser prático, fazer por viver em paz sem receber mensagens, deixar viver em paz sem reenviar mensagens, aceitar o instante sem pensar o instante, a hora, a exploração aurífera da manhã - e o vento do entardenoitecer.

O que vem no vento do entardenoitecer?

No vento do entardenoitecer vêm


Alguns mortos (não todos, os vivos só);

Linhas de casas traçadas por crianças (de qualquer idade: crianças e casas e os gestos que traçam);

Parar de máquinas cansadas como pessoas, como animais;

Fragmentos de inquéritos;

Asas secas;

Oportunidades esquecidas;

Sombras de relâmpagos, de ondas, de desejos, de azulejos;

Aspirações lentes;

O sabor do damasco;

O sabor da injúria;

Cartas urgentes de um século que deixou de o ser;

Gatos alheios;

Cacos de discursos gravados em mármore;

Farrapos menos antigos do que as pessoas que os perderam;

Prospectos de astrólogos, de lavandarias a seco, de actas relativas à vida quotidiana no Antigo Egipto, de facturas com refeições discriminadas por pratos que foram servidos e estações do ano em que foram tomadas.



1 comment:

António said...

Sinto isso, quando a calma me consegue acalmar. Aí o vento do entardenoitecer quando impregnado de aromas que o olfacto consegue decifrar, evidencia memórias de acasos supostamente não vividos, mas efemeramente reconhecidos.
É mais ou menos isto...