Tuesday, September 01, 2009

Dentes, Falcões e Pré-Românticos - uma Relação




The Lusitania at the end of the first leg of her maiden voyage
New York City, September 1907




Souto, Casa, noite de 1 e madrugada de 2 de Setembro de 2009





Pessoas cujos dentes aparecem em colecções privadas de pérolas, mordedoras de água de rios, de pedacitos de éclogas, de instantes que vivi de olhos encerrados mas de olhar não.
Corydon Erymantheo e Matt Marriott & Powder, Zanzibar mercurial, pessoas que se fecham em casa para viver e para morrer, relógios à lareira, gatos articulando egiptos muito pensativos.
Em salões de dança, cavalheiras folgadas vermutam pasodobles sem culpa nem redenção, quem diz Corydon diz Elmano Sadino, o esfomeado.

Não estou a perceber nada disto

geme um leitor desalmado de pré-românticos.

A fraude Milli-Vanilli também é gira, a tuberculose fila e fina Carlos Eugénio Correia da Silva (Paço d'Arcos) aos 26 anos de idade, pobre moço.
Vale que as moças casadoiras seguem engendrando e desentranhando luíses-filipes e anas-paulas com relativa fartura, não vão fáceis nem vêm simples os tempos.
António Damásio é um dos arautos da desneurose de Deus, vamos todos ter problemas com tanto vazio fora-de-portas-do-Corpo.
Esplendor, fulgor e melancolia dos viajantes de vendas em zonas demarcadas, maior fortuna a dos que a quem cabe os périplos litorais, sempre almoçam pacotes de batata frita e latas de coca-cola olhando enseadas, metendo cassetes de Peter Gabriel e Nazareth e Gianni Morandi e Van der Graaf Generator no leitor da carrinha carregada de batata-cola e coca-frita, é giro não pensar muito no que te espera em casa.
(Eu já fiz o périplo da Barra de Aveiro.)
Corydon preso a 9 de Abril de 1771 por ordem do Oeiras/Pombal.
Longas extensões de charneca, onde o enriquecimento fulmina de quase felicidade o colector de nomes/datas.
E não falecer, não 'inda, antes de um verso que a esmalte dental mereça.



Mente em corpo-Giorgio-Armani, por bandas de Fresno.
Os satélites trabalhando altíssimos em prol da incomunhão.
Cruzes de pedra em tetravias, famílias jantando massa com linguiça em serões ofuscados a petróleo.
Dunas corridas por um vento de pássaros transidos de frio.
Bonecos abraçados por crianças sonolentas.
Alcatifas ensopadas de sangue em assassínios domésticos.
Enumerar tudo isto e o quanto e o mais que se puder, em prol de uma sobrevivência ao menos epigráfica: como um disco dos Milli-Vanilli.



Tudo isto é escrita paralela a, digamos, um livro.
Naturalmente outro, digamo-lo também.
Não se trata propriamente de amor, a vida regressar à literatura sempre que pode ou que outra coisa não pode é mais correcto equivaler tal regresso à Síndrome de Estocolmo, por (bom, aliás) exemplo.



"Eu quero incluir praticamente tudo e no entanto saturar."

Isto é Virginia Woolf a 28 de Novembro de 1928.
Há quase um ano e um século, portanto.
É já, então, a tentativa de desvenda dos

"momentos do ser".

Em 1932, a mesma senhora apontava aos jovens poetas a "tarefa" primordial:

"encontrar a relação entre coisas que parecem incompatíveis e contudo têm uma misteriosa afinidade."

Isto, precisamente isto, em Estocolmo como em toda a parte.



E falcões que, mais do que voar, desenham auto-retratos no ar de papel-pardo, algures em Itália ou Fresno, aonde não posso ir porque escrevo.



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