Wednesday, September 09, 2009

Senhoras, Areia, Crianças e Estorninhos





Souto, Casa, madrugada e entardenoitecer de 9 de Setembro de 2009



I

Estou dentro da cabeça de uma mulher morta quando viva.
Setembro é o meu mês-Woolf.
Recebo as ondas, os recessos, a melopeia ideográfica, veja as flores dela dentro dela, as cores que sopram como ventos, os animais a pensar linha a linha, a cercania por assim dizer vegetal de mar & céu (a terra é toda cascalho).
Digo então que um rumor de estorninhos e um brilho circular de louça de jantar se conciliam num campo de visão não nascente da cara mas do desejo de cinema gráfico, escritural.
Um rumor de louça, estorninhos brilhando círculos negros no céu de porcelana.
Jantar dos Ramsay, Jacob sublinhando Virgílio (como Correia Garção), Lily B. colorindo os anos, as horas.
Sentado na madrugada sem possibilidade de sono.



II

Vi crianças brincando distraídas da corrupção política.
Construíam entre os gestos e os objectos: como os poetas fazem.
Também tenho passado a vida na brincadeira.
Vi a zona verde de Campo de Ourique, a barra do Tejo, Tuy além de Caminha.
Uma mulher de chapéu azul tarjado a ouro e púrpura: bonita senhora e bonito chapéu.
Esta força aqui de dentro, pusilânime quando calha.
A pressão da vida fazemdo olhar muito, fazendo usar os ossos e a língua, latejando nas fontes como água nascida a ferver.
As crianças não sabendo que são elas também areia.
Os canaviais da minha mocidade, os pássaros redactores do vento da mocidade a que pertenci antes disto.
Brincando distraídas, arenosas, estorninhas.
A água tremendo as vidraças, como às vezes os olhos tremem o olhar,
além do sono.

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