Wednesday, September 30, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 3

O céu de Pombal na tarde de 27 de Setembro de 2009



3

Pombal, fim da manhã de 15 de Setembro de 2009

As palavras são, minhas filhas, um rio.
Um rio delas a vós me trouxe em foz.
Sou, filhas minhas, o homem-pai: ao frio
devoluto sou, quente, de filhas, que sois vós.

*

Rapariga de gritantes unhas encarnadas aos pés.
Pendurada num moçoilo-elvis de suíças-presley.
Compaldalperce-piercing.
Calcanhares já gretados de freático mênstruo.
(Sim, as palavras são maravilhosas, até sem nós.)
Liptonáicetí.

Agora as notícias, por favor do mundo:

JOVEM MATA-SE POR AMOR
CAPITÃO-DE-FRAGATA SEPARA-SE DA ESPOSA DE HÁ 22 ANOS PARA VIVER COM JOVEM GRUMETE
A PARTIR DE 7.650 O MEU AMOR BREVEMENTE

Diz a Rapariga de Unhas Encarnadas:

Ai gá-de (h)rída-me
Ai gá-te setáil

Dizem as suíças-graceland:

Harém óluéis óne may-maynd.

Graça que me couber da linguagem.
Isto acontece no entretanto das pessoas: uma coisa engraçada da vida das pessoas é o acontecimento das coisas ser quase todo antes de morrerem as pessoas uma de cada vez e cada uma por si: gatos que alguém viu passar.

Um senhor do meu conhecimento foi taxidermista.
Outro, taxista - faltava-lhe o dermi para ser o outro.
Coisas assim - maravilhosas, filhas minhas.

AGORA TELEFONEMAS A FAVOR DAS EX-COLÓNIAS POR FAVOR DO MUNDO:
ANGOLA1968AMORDEMÃE

Busco as leis de base, as regras verdadeiras e poliglotas e babélicas:

1- Uma galinha mede sempre o chão por ser míope;
2- O amor faz às pessoas o que o Outono faz às folhas, isto é, amarelece-as primeiro e depois atira-as ao chão;
3- A vida é como um pano guardado em casa sempre que alguém se esquece de onde vive, se vive;
4- O amor que nos tiveram ainda cria galinhas.

E ele disse-me de uma viola-baixo que era para ter comprado em caso de ter vindo verba entretanto, não veio, foi-se desenrascando com a distracção-de-ser, aliás comum às pessoas que gostam de música.

Chamo-me Schubert e crio música.
Estou morto fisicamente há um (hor)ror de anos mas 'inda o não sei por que a minha música vive - e já vivia antes até de a escrever eu, que sou Franz.
Solteiro, passeio à berma d'água - e crio música.
Sou invencível e vou morrer.
E música, truta minha, água-natatória-fluvial-de-a-ver-o-mar.
Conheço, filhas minhas de quem sou, casos de arte que servem para/e/por exemplos de estragar a vida.
Que nunca tal vos aconteça.
Eu remediei-me mal, sem vós - não sirvo para exemplo, ortografia exceptuada.

Um tempo acontece de as pessoas, coitadas, gatinharem involuntários (quase) excessos - e de quererem a infância toda de volta e de borla e de repente:

NÃO PODE SER

: dizem as notícias do dia.
Golpe d'asa, foz & vós & voz.

E FEITICEIRO D'OZ.

Isto passa-se entretanto e a vida treme como as folhas nas mãos vegetais dos homens envelhecidos tais árvores.
Passa-se mas a vida é, as lojas duram quanto podem, coitadas.

Vi o Tó Pereira, à porta da loja.
O João Mário está para Leiria, a cuidados paliativos.
A boca indica mesmo sem querer o lugar do coração, da cabeça.

Um homem regressava a casa.
Dava-se o fim de cada tarde.
Vinha sempre pelo porto.
Consultava os barcos gráficos, a grafia dos albatrozes.
Ele e os barcos e os albatrozes e cada regresso voltavam ao mesmo,
filhas.












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