Sunday, September 27, 2009

AVES COMETENDO O ANIL E DEMAIS VIAS-FÉRREAS - 5




Pedrulha, tarde de domingo, 27 de Setembro de 2009
Viagem Pedrulha-Souto, idem
Souto, Casa, entardenoitecer de idem



Domingo de eleições, dia de agitação de antenas de insectos e caudas de ratos. Vinda à Coimbra natal, a votar. Encontro ao portão da Escola Primária com o Carlos Massas e o Vitinho Manivela. Tempo largo, quente. Fábricas abandonadas, ruínas de outro século. Passa o 25 a caminho da Praça da República. As térmitas do Tempo labirintam as madeiras todas: o chão, hirsuto de mato, de onde foram as Fundições Gomes Porto; o palácio assombrado da Estaco; a derrota da Triunfo. Etc.. Goodbye, Pedrulha, goodbye les bonnes-nuits.

*

O tempo represado na cabeça
(escura água em cisterna escura)
não é o mesmo decerto que afora
estende pano de árvores a terras.

Outra vida teima ser viva adentro.
Capela ambulante, o corpo pagão
a deus algum se oferece morto
nem vivo. Apenas de si é, afora.

Dos tempos fricativos, a real refrega
chispa lumes contundentes.
Negro tesouro de frias águas negras:
tempo contratempo, corpo-a-corpo.

*

Aos poucos se me cala a flor viva da novidade.
Muito tempo a contar incontáveis barcos través estrelas.
Muito tempo de homens afinal sossegados entre pedras.
Muitos muros, alguns cães, uma mão-mal-cheia de caminhos.

Verdade que a magia é a mesma, mesmo o encanto
até do desencanto. Borda-se de choupos e salgueiros
a avenida-rio de uma amargura boa de suportar,
afinal. Crocodilos, gardénias, sala de tango, licor de pêssego.

Em casas de senhoras sós, companhia de pratas e rapé,
bules que tinem cuneiformes passinhos de gaivota à ruga
das areias, o gato que enovela a Duração, a reprodução de Klimt,
o rádio apagado como uma vela deixada na rua.

Pesponta o veludo alto cosmogonias, estrelícias atiram
lumes siderais ao convexo chão. Sobe da boca, cálido,
o uivo lunar (cutelaria de lobos, medo de meninos),
em demanda de tanto santo cálice os últimos marinheiros.

Comigo anda 'inda a alegria de idas crianças
em setembro douradas de sanguíneos filtros férteis,
animais de calções no outono despindo-se, ao cair
do pano a voz das cabras, o fumo subindo as casas, as fábricas.




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