Wednesday, September 02, 2009

Rainha do Café Angola





Souto, Casa, madrugada de 3 de Setembro de 2009





Às vezes o nosso corpo viaja fora de nós connosco de través Grécia-Egipto-Roma-Bruxelas: as cabeças que no café pensam filhos, lotarias, empregos, férias, cêntimos.
É muito perigoso deixar que a desolação baralhe e dê as cartas do jogo de cada dia - claro que é.
E como tudo o que temos para ser é o corpo, o jogo tem de ter mais distribuidores, mais banca, na ausência de parceiros.
Faço assim: vou à varanda, mostro a cara às ausências, aos mecanismos da noite, à via abandonada pelos adormecidos.
Faço por pensar o mínimo, solicitado pela brandura do ar, grande criador de arvoredos e de postes de iluminação pública.
Recordo sem ser por mal as putas idosas do Café Angola, que me entraram um livro adentro e nele ficaram, a páginas tantas.
Estou aqui vivo, sou este corpo, este poço, esta laranjeira, este pártenon barato de uma coluna só.
Nefertiti, sempre bonita, melhor de perfil por causa do olho vazado do outro hemisfério do rosto.
Sou também um rosto, na madrugada tépida da varanda.
Tenho letras, letras que circunscrevem números: datas ilusórias, mas

"Sem dúvida estaríamos dum modo geral pior do que estamos se não tivéssemos um espantoso talento para a ilusão."

A senhora Virginia W., claro, essoutra Nefertiti, na página 147 de O Quarto de Jacob, claro.

Isto não tem mal.
Pior, bem pior, é apaixonar-se pelo amor em vez de amar apenas outra pessoa - fora do corpo.
Queria pensar menos, recolho da varanda à sala, ainda há café na cozinha, o silêncio é intenso como uma madeira cara.
Ou como uma cara de madeira.
Sento-me, vejo azinhagas frondosas estendendo sombra e pedras, desejo a passagem de cavalos de artelhos musicais, noc-clop-noc-clop, fiz bem em não me meter a ler Maugham de mais em 1981, sorrio para o vidro do televisor desligado, o sino falso (é cassete) da capela faz clop-noc-clop-noc, duas da manhã.
Regresso à varanda - e sou oferecido a maravilha de chover.
Chove uma harpa transparente, o chão é de um negro rutilante, parece carvão envernizado, muito bonito e muito triste: nefertristi.
Vi delfins, uma vez: projécteis perfeitos, vorazes, de uma elegância atroz.
Não os escrevi então, deixei-os ir.
Agora, voltaram.
Está a chover na minha vida, o verniz sobe do chão ao ar da respiração, a boca adquire asperezas de dióspiro (e dióspiro é uma palavra noc-clop-noc-clop), é maravilhoso que passem tão poucos carros, o padeiro da Estrada não passa antes das quatro e meia, Estrada é como se chama uma terra aqui perto, nome curioso: sítio e via, como um rio, ao mesmo tempo.
Ao mesmo tempo da Rainha e Senhora Nefertiti tão bonita à chuva, pensa a varanda em vez do homem, do corpo.

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