Thursday, September 03, 2009

Alvor



Souto, Casa, alvorecer de 3 de Setembro de 2009
(Imagem: visto algures, 20 de Fevereiro de 2009)





As palavras que buscamos estão penduradas rente à árvore. Vimos de madrugada e achamo-las frescas debaixo das folhas.

Virginia Woolf, O Quarto de Jacob



Alvor:
o milagre fresco dos pinhais nascendo afinal ilesos do cabo da noite.
Arde 'inda a minha vela de cabeceira, ouro de pobre, vertical, almada.
A vida aí está, peremptória como (desde) sempre: demonstra-a um insecto agarrado ao vidro da janela, o despertar das plantas que a mulher cultiva na varanda, elas olhando para as irmãs sem vaso de baixo, no quintal.
Café novo na cozinha, queijo e manteiga e pão e bolachas das mais baratas.
Alvor também dos livros amados, parecem soldadinhos de sentinela aos quartéis humanos: Leonardo, Eliade, Oliveira Martins, Ariès, Ferreira de Castro, Soeiro, as Senhoras Woolf e Crayencour (dita Yourcenar), Mortimer & Blake.
Troto-trânsito a jumento e a gasóleo, relinchar de porcos em invisível remoto curro, ladrar fino de arvéolas e felosas, falar do cão próximo, grasnar das velhas madrugadoras na paragem do autocarro, pissitar das criancinhas-creches, murmurar do diospireiro para o cedro: sinto tudo , tudo alvoreço.
Daqui a pouco, dar à máquina esta caligrafia, raspar a barba sem grande metafísica se possível, escolher as músicas da manhã, afiar lápis e preparar a noite de todo o resto do dia.

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