Thursday, September 20, 2012

Três coisas de 29 de Agosto de 2012







PRÉMIO POR OBJECTIVOS

Leiria, tarde de quarta-feira, 29 de Agosto de 2012

I

O objectivo de cada dia é ganhar para ti o mesmo dia,
chegar a casa com simples & boa nova de existires,
fundamentar de ti as décadas da nossa história vulgar
e feliz.
Grandes extensões de água medeiam o teu ser continental,
reflicto eu sem pressa entre arvoredos e dunas oxidadas
de tanta espera, que
alguma vez, como sabes,
tinha de nos ser – e agora é e é esta,
desta vez.
Vês?
Acredito no bom ano passado-futuro como acredito
na verdade da flora, na franqueza da terra &
na simpatia da senhora dos Correios
que a esta carta para ti dá vazão &
prioridade.

Quanto a todo o resto,
se alguma coisa te presto,
estás à vontade.

II

No tempo das tâmaras natalícias saíamos ao frio,
éramos muitos então e nada receávamos,
não nos admoestavam a pobreza nem o cio
estávamos gente e nem pensávamos

que outras vidas viessem conspurcar as nossas simples,
não era ’inda então como agora tem de ser,
celebrámos os vint’anos com uma garrafa de Dimples
e um punhado de nozes bem boas de roer.

Depois vieram as neves, as primeiras mortes
da nossa povoação sentimental,
fomos prà tropa, tirámos às sortes
quem faria da Natália a metade conjugal.

A mim, não m’ela calhou: acabei no remoto desterro
de um qualquer nenhures Algures chamado.
Bebi muito vinho, cometi muito erro,
mas já tenho mais que um livro publicado.

III

Ao lado da minha poesia têm andado muitas muito painças
gajas boas de milho, mas sem aleivosas obscenidades.
Pego-as verbalmente (só verbalmente) em pinças.
Louvo delas as carnudas qualidades.

A minha Senhora, ao cabo de me ler, torce um pouco
o nariz bonito e desconfiado. Não é que não ache graça,
a minha Graça, a tais versejações de manso louco,
mas de quando em vez atira-me as oftálmicas e, por pirraça,

desafia-me a trocá-la por elas, as gazelas, as beldades.
Finjo-me de pronto escandalizado – e grunho assim:
Como provera eu a cambiar-te, ó pura beleza, ó monstro d’arte?
E ela, apaziguad’amansada, dá-me o melhor do seu jardim.

2 comments:

Maria João Brito de Sousa said...

Não sei se de mim, se do poema, se da interacção... senti-me a entrar à socapa num monólogo muito, muito íntimo...

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Bem-vinda na mesma, Maria João.