Tuesday, September 11, 2012

Manhã de domingo, 9 de Setembro de 2012


DOMINGO DE MANHÃ AO LONG’ÁLEA

Leiria, manhã de domingo, 9 de Setembro de 2012

Os últimos dois anos (digamos que os últimos dois anos) da minha vida levaram-me (ou trouxeram-me) a integrar as sucessivas paisagens (ou seja: país-[im]agens) à maneira da árvore que, envelhecendo para cima, se volve afecta a um caruncho ponderoso e a uma única mão concludente de muitos braços – ou ramos. Naturalmente, a mão que escreve: a mão que escreve a-mão-que-escreve. Ou então: a mãoquina-de-escrev(iv)er. Por outra: tenho andado a dar bolotas.
O equipamento não é muito: um corpo para e por umas poucas ruas. Lápis e caneta alternam consoante a vogal necessidade de ou macieza ou agrestia. Os meus padrinho e madrinha de casamento vão-me fornindo de cadernos, que, uma vez povoados de ramagens, resguardo em casa do vento ominoso e da caca de pássaros.
Rola o calhau terráqueo pelo éter gelado da galáxia – e eu na galeria da Rita ou na colónia da Rosa fazendo tinir o diapasão de muito cálice, supondo nuvens na parte do tecto que reclama pintura; ou aplaudindo por tautologia o rumor de aplausos da chuva, quando a verdade é dar-se na rua um sol canicular que esboroa de sal os polícias e mumifica de poeira as velhas-dos-sacos-e-gatos. Tem sido muito assim.
De quando em vez, procedo ao ilusionismo do desenraizamento, i.e., mexo-me – e então atiro braçadas de palavreado a meia-dúzia de amigos, cuja recepção invariavelmente me acusam como de rosas: mas é palavreado.
Não careço de maravilhas decorrentes de urbanidade. É prolixo, o mundo: este casal da mesa à esquerda-baixa, por e para exemplo. Ele e ela comem de talher os respectivos mil-folhas, supondo-se talvez os mais pontiagudos aríetes da civilização. Isto – num País que desunha à mãozada a sardinha multitudinária de cada inauguração de fontanário por um qualquer zé-hermano do Governo. Pior: ele está de calções longos estampados de castanho-cocó-de-segunda-feira. Trai-lhe a remo(r)ta mocidade rebelde, porém, uma tatuagem de sereia ao longo do flanco da tíbia direita. Não foi, todavia, com uma sereia que se consorciou. Ela é de ombros quadrados como o homem-da-regisconta ou qual os vilões do Dick Tracy. Usa braços enroscados de unto em si mesmos, que culminam: o esquerdo, num relógio de pulso à guarda-nocturno cuja mulher esteja entrevada desde o estoiro do Sá-Carneiro em Camarate; o direito, numa pulseira que lhe garrota o pulso autoritário mas mole.
Quando, desconfiados desta escrita demasiado vizinha como toupeiras de periscópio, se levantam e desandam, não fico mais pobre nem desamparado sem remédio: do lado do Lis, fina como a comissura labial da mulher que por nós amada em baixo nos revira o olho lácteo para cima, uma flanela de sombra refresca-me a pré-fadiga de tanto-lápis-tanta-tinta-tanta-página. Ao longo-álea, corredores dominicais ajuizadamente procedem à oxigenação dos respectivos calhambeques anatómicos: bancários grisalhos que sempre votaram Cavaco, mesmo quando o Cavaco não concorria ainda, raparigas empregadas na Câmara especializadas naquilo da feira-medieval-produtos-endógenos-sensibilização-rodoviária-&-demais-croquetes, cachorros cruzados de labrador falso com pequinesa espúria, avós de cinquent’anos cujo látex-de-treino ao quarto cálice disto que bebo agora ’inda marchava, matilhas esfarrapadas de ciclistas forcejando os velocípedes modernaços, mineiros peruanos no desemprego tocando à esmola el-condor-pasa onde se está mesmo a ver que só passam pombas e desempregados, crianças abandonadas como crias de casais ingleses em férias vinícolas, velhinhas que acreditam na intervenção pessoalizada da senhora-de-fátima nos cancros do António Sala e do Marco Paulo, um homem que veio comprar cigarros e acaba de descobrir que nunca mais volta nem a casa nem para o namorado, dois especialistas em escriautatomática cuja hermenêutica favorita é atirar caroços gordurosos de azeitona um ao outro nos jantares memoriais de curso de que foram, são e hão-de ser os únicos comensais como o Miguel e o Relvas, um leitor do Diário de Notícias que acha muito bem o brasilês por causa de se-não-fosse-assim-como-é-que-se-percebia-a-novela, o plumitivo do jornal local que pensa que a Balada da Neve, o , o Cântico Negro e Os Lusíadas são coisas maravilhosas do Miguel Torga, um funâmbulo de circo desmantelado crestado da nostalgia de aparar os vértices pilosos à Mulher Barbuda – e pelo chão a revoada das primeiras folhas outonais de inverno como o regaço da Mãe.
Na sequência (ou em consequência) da hora (as 11h30m), a manhã do Senhor fumega já furnas de rescaldo. Do alcatrão aquecido vidram ar acima os miasmas perigosos da antiga tísico-química. É acertado instante para derramar o lance do abandono. Quem tinha de vir ao pão, parece-me já ter vindo. Sofro então (agora mesmo, antes mesmo do primeiro mesmo estar escrito) da angústiazita do porta-lápis que odeia a borracha evacuadora. Em vão me socorro da pedregosa calvície do diariodenoticiarista brasilófilo cujas sardas cocurutas equivalem a punções da tal caca dos tais pássaros do fim do segundo parágrafo. Em vão saúdo sem fremir um músculo a chegada pernalta de uma quase-sósia da boazona da Uma Thurman, cuja arriba ventral, de tão lisa, promete babas as mais concupiscentes a todo o gajo menos a mim. Em vão me sinto vão – ou vácuo caraças: segue-se no calendário mental o terror da tarde de domingo, esse planalto a que sobem as horas mais insulsas e os ócios mais lenitivos. Valer-me-á, talvez, a íntima certidão de ter atenazado pelo menos um quarto de hora aos dominicanos amigos, esses santos que, a esta hora, ou miram comissuradamente de cima as respectivas senhoras ou se preparam para jurar a pés-juntos e a quem os ouça que nunca votaram no Cavaco nem acreditam naquilo do MarcoAntónioPauloSala, por mais látex use a velha aeróbica.

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