Tuesday, September 11, 2012

Ontem de manhã, segunda-feira, 10 de Setembro de 2012



GOTA-DE-LEITE ETC.

Leiria, manhã de segunda-feira, 10 de Setembro de 2012

Uma espécie de curiosidade bem alicerçada na ignorância dos métodos do mundo adiciona-me sem custo à petrificação da atenção. Ponho isto assim sem dor nem pressa – e sem ansiedade, posto que a noite dormida foi apesar de tudo uma jornada de apaziguamento de demónios & fantasmas autodidactas. Deitei-me, deixei-me.
O mundo retornou cintado de azul, coroado de nuvens e sem abafo. Tacteei na cozinha o desjejum enquanto a máquina da cabeça pipilava como a estremunhada cotovia sobre ramo de faia. Lavei o corpo a seguir na catarata domesticada a que por aí chamam polibã não sei porquê. Revesti-me de tecidos cansados (tenho de comprar calças e camisas um dia destes, projecto que se me insurge há anos sem qualquer consequência assinalável), alicercei-me no calçado, aventei-me ao reconhecimento das poucas ruas que vão da minha cama a este caderno.
Ei-la, à falsa estática do mundo: o poder das coisas, o coleccionismo de fumigações, os cinquentenários de pochette à Cunhal, o esmifrar do cronometro, a sombra lúdica que a álea beira-fluvial atira qual a passadeira. Na Nova Zelândia, a esta hora, dormem talvez os carneiros e os pastores mecânicos – pois isso não sei. Neste antípoda, o senhor Fernando sobrolha o Record, ingerida a cevada preventiva do AVC que o há-de levar num pré-Outono, oxalá que não este.
Faço por não ceder à ira impensada. De joelho elástico, passa pedaciclando o senhor Meireles que tinha a retrosaria, entretanto e em má hora passada ao filho, esse Tomé que depressa e valdevinamente a torrou ao jogo no casino. Vale ao Meireles o amor-de-neta, que o Tomé em boa hora se lembrou de fazer a uma empregada da retrosaria antes de os oficiais de justiça irem inventariar e selar a loja.
Estas coisas parecem mentira por causa da literatura. Eu sei. Mas gostaria de vos ver no meu lugar-de-vista – mormente quando a Noémia do Costa está lixada da vida por causa dos desfalques que o Costa lhe plantou antes de cavar para o Canadá ou Cabo Verde, não se sabe.
A contratempo arpejado, jamaico estes reggaes da lusa miudeza leiriense. Uma suavíssima badana de vento pagina a possibilidade aérea (e merencória) do seguinte parágrafo, o qual é:
Trio de mãe & casal de filhos, largos e gordos todos três. A filha é daquela boniteza oleosa pronta-a-inchar a cada dentada de bolo-de-arroz. O filho é daqueles batoques pègão-de-ponte e dedos de pés túmidos como salsichas miniaturais de hotel-breakfast. A mãetrona parece raiar dois distritos fronteiros a cada passada de turquês. São de uma imponente portugalidade, daquela lusitanidade que é afinal a santa maior do meu altar nativo.
Outro parágrafo é este, em que me ocorre a verosímil eventualidade de cada um ser tão-só o que merece(r). Acumulei pelas casas pretéritas e pelos pretéritos casos um cadastro conivente com certos dós-de-peito indispensáveis à ópera-bufa das minhas vidas (a escrita e a outra). Faço por também disso não cuidar agora: que ao breve longe, a cinta azul se fez campânula no céu não por enquanto proibido ’inda, preciosa joalharia a céu-aberto superintendendo à loja-dos-trezentos de cada existência galeria-rítia. Esta avó aqui mesm’agora: totó-carrapito em rodilha occipital como se para suporte & transporte de cantareira bilha atravessada, blusa como as da minha Mãe quando nem ela nem ninguém havia morrido, saia de alarga-pernas à fumadora de bordel, mas coitada da senhora, que nem fuma nem me parece alternadeira, fátimo-peregrina é que sim, é moed’aposta fácil de ganhar sem suor.
Num carrinho, visão de menina absorta em seu trono portátil. Move-a o irmão, adolescente também grave. Galeria afora, sentido minhas costas. Viro-me e aprecio: da porta da farmácia, acena-lhes a mãe, que foi aos bem-u-rons e aos pensos femininos. De que três vida dou notação ’inda, quando estas noto? Que lugar para elas (e a partir delas) na História de Portugal, esse morredouro incurado e incurável de esquecimentos? O mais que posso tentar:

A menina em gota-de-leite derramada às flanelas,
o rapaz pensativo que a irmana e move,
a mãe relicária das tantas pagelas
que à fé do povo anima e comove.

Em torno o mundo retoma e retorta
o drama das coisas mais comediantes.
Tudo nos será qual nos era antes.
Tudo gente viva, dormida, absorta.

A hora é chegada de retomar a casa: bacalhau de molho e Alphonse Daudet em seu moinho. Dar de beber às plantas da cozinha e do terraço. Não esperar telefonemas nem braçadas de lírios brancos. Levitar no abandono controlado da esperança mais vácua (seja do que for). Envelhecer centímetros ao meio-dia (são as 11h03m agora, sou ’inda moço), aquecer os despojos nutrientes da véspera, bordar as divisões a fio-de-ouro barato, pessoal, passável ao ferro-crivo do Idioma.
E petrificar até o ar da atenção, aqui onde uma pessoa é um animal (a)palavrável, arável – e, podendo, amável.

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