Tuesday, September 18, 2012

MANDA ELA QUE CALDO VERDE SEJA A CEIA, MAS NÃO SEM UNS VERSOS LHO FAÇO E (M’)ENTREGO





Doura a hora o manto azul
que  a sul meridiano é chamado.
À guitarra dos versos o meu fado
é ter encontrado o norte anil

numa pessoa delicada e morena.
Não chamo à minha sorte pequena.
Muito concorre ao bom viver
o ser buscado e amado ser.

Graça de sua graça, a mulher da casa
freme derredor perfume a bom papel,
tal que por tal a escrevo e, Daniel,
a faço voar a golpe de asa.

Feliz instante. Suave contentamento.
Vou ao pão por ela, que a ela trago.
Somos já ambos a modos que um cimento,
à caridade do sol, à seda do afago.

Bonitas palavras, eu sei, porém menos belas
do que vê-la dormida ao luar das janelas
que nosso tálamo abrem às mil cortesias
das mil e uma noites, dos mil e um dias.

Caldo verde, portanto. Há ainda chouriça?
(Secreto, baixinho, o casado coração
sufraga penugem, que excitada se eriça
e faz do namoro a confirmação.)

Quase na hora. Vamos com calma.
Desligo o telefone, ponho um disco a tocar.
Esboroo um pão, eu quase a dançar
enquanto ela não chega a tiracolo da alma

que a ela responde em fiel secretário
desde 20 de Julho em responso ao notário:
  – Quer o senhor, que é caldoverdista
casar com a Graça, esta fina artista

a modo civil para todo o decorrente?
E eu que sim  – e, muito contente,
fiz de mim o dobro por metade dela.
(E o mais que não digo, que o diga ela.)

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